domingo, 17 de junho de 2012

jacques derrida - Marcel Proust










Jacques Derrida A Escritura e a Diferença



ELSA CARAVANA GUELMAN
Jacques Derrida, analisando Marcel Proust, afiança que “ a exigência estrutural era constante e consciente, a qual se manifesta por maravilhas de simetria (nem verdadeira nem falsa), de recorrência, de circularidade, de esclarecimento retrospectivo, de sobreposição, sem adequação, do primeiro ao último, etc. A implicação do fim no início, as estranhas relações entre o sujeito que escreve o livro e o sujeito do livro, entre a consciência do narrador e a do herói, tudo isso lembra o estilo do devir e a dialética do “nós” na Phénoménologie de l´esprit. Derrida cita o comentário de Rousset sobre Proust: “Discernimos ainda outras razões para a importância dada por Proust a essa forma circular de um romance cujo fim se fecha na abertura.” (...) “O fim do livro torna possível e compreensível a existência do livro. Este romance está concebido de tal maneira que o seu fim gera o seu início.”
Derrida considera que a observação de Proust de que “O último capítulo do último volume foi escrito logo após o primeiro capítulo do primeiro volume. Tudo o que está entre os dois foi escrito depois” caracteriza um pré-formismo praticado (doutrina biológica segundo a qual a totalidade dos caracteres hereditários estaria contida no germe, em ato e com dimensões reduzidas que já respeitariam contudo as formas e as proporções do futuro adulto), ligando-se ao geometrismo e à estrutura. Para Rousset,” Proust coloca numa das entradas do seu romance um pequeno espelho convexo que o reflete em miniatura”.
Assim a estética de Proust, sob o prisma da análise feita, concorda com a de Rousset e mostra afinidade no tema da "monotonia estrutural".







O cenário da guerra em Paris na visão de Marcel Proust em Le Temps Retrouvé. 


CARPACIO·




Elsa Caravana Guelman

O narrador, numa tarde em que resolveu sair, ao atravessar a cidade após passar pelo Trocadero e olhar o céu preguiçoso e lindo, que se ia prolongando molemente, para evitar a chegada da noite, continuou suas observações, já bem distante do percurso inicial, quando sentiu a diferença do ambiente: “Voltei sobre meus passos, uma vez tendo deixado a ponte dos Invalidos, e já não havia mais dia no céu e não aparecia quase luzes na cidade; tropeçando aqui e ali nas latas de lixo, tomando um caminho por outro, eu me encontrei sem perceber, seguindo maquinalmente, num labirinto de ruas escuras, chegando aos bulevares. Ali, a impressão do Oriente que eu tivera se renovou, e por outro lado à evocação da Paris do Diretório sucedeu a da Paris de 1815. Como em 1815, havia um desfile sem harmonia dos uniformes das tropas aliadas; e, entre elas, africanos de saias-calças vermelhas e indianos com turbantes brancos eram suficientes para que, dessa Paris onde, agora, passeava, eu formasse toda uma imaginária cidade exótica, num Oriente, a um tempo minuciosamente exato no tocante aos costumes e à cor das fisionomias, arbitrariamente quimérico no que concernia ao cenário, como da cidade onde vivia, Carpaccio fez uma Jerusalém ou uma Constantinopla, ali reunindo uma multidão, cuja maravilhosa miscelânea não era mais colorida que essa. “
O narrador amava a Veneza de Carpaccio, que era “ toute encombrée d´Orient comme l´est le Paris de la guerre.”
( Obras de Carpaccio que Proust admirava: “Saint Georges et le dragon” et “Arrivée de Sainte Ursule à Cologne”, de la “Legende de Sainte Ursule”)



sábado, 16 de junho de 2012

BERENICE - Conto de Edgar Allan Poe




Foto: nelson-evergreen.blogspot.com http://www.unimep.br/phpg/mostraacademica/anais/5mostra/4/204.pd


5º Simposio de Ensino de Graduação
ANÁLISE LITERÁRIA DO CONTO “BERENICE” DE EDGAR ALLAN POE
Autor(es)
ÉRICKA BAUCHWITZ FURLAN
Orientador(es)
Josiane Maria de Souza
1. Introdução
A proposta deste trabalho partiu inicialmente de uma tarefa requisitada para a disciplina de “Teoria Literária
I”. Após estudar o modelo analítico estrutural do ensaio de Roland Barthes, inserido no texto de Carlos Reis
“Técnicas de Análise Textual” foi possível efetuar uma prática da análise literária dentro do conto “Berenice”,
cuja autoria é remetida a Edgar Allan Poe. A importância desta atividade explana-se pelo fato de fornecer ao
leitor uma nova visão sobre o texto que lê. É possível desempenhar mais do que uma leitura analítica,
privilegiando um aspecto crítico da obra. É estimulado no leitor observar fatores que vão além daqueles
apresentados explicitamente na obra, sendo possível estabelecer relações com conhecimentos prévios,
consentindo assim um aprofundamento intrínseco do texto e sua reflexão geral. Neste caso, a análise se deu
ante um estudo filosófico da Teoria das Idéias de Platão. Para tal, tomou-se como base uma leitura ampla de
conceitos filosóficos “O mundo de Sofia, de Jostein Gaardner” e uma mais estrita “Para uma nova
interpretação de Platão, de Giovanni Reale”.  Além de parte da obra de Carlos Reis e do texto traduzido de
Poe por Breno Silveira, também foram utilizados, como base de estudo, Dicionários de Símbolos; Dicionários
de Nomes Próprios e Dicionários da Língua Portuguesa.
2. Objetivos
A análise literária do conto “Berenice” aqui efetuada teve como objetivo principal efetuar uma leitura mais
aprofundada e minuciosa da obra, estabelecendo uma relação direta com as idéias do filósofo Platão. Com
base no ensaio de Barthes, foi realizada uma análise estrutural, dividindo o texto em partes, mas sem
esquecer seu aspecto geral. Para Barthes, o texto literário é como uma grande frase atuando como um
sistema fechado, mas que se dividindo pode cada parte atuar com e em relação à outra. Exatamente esta foi
a aplicação cumprida, podendo atingir o objetivo primordial de investigar a fundo a obra, desvelando uma
nova interpretação além daquela expressa nas linhas do autor, no caso o vínculo com a Teoria das Idéias.
3. Desenvolvimento
1/4Depois de estudar o ensaio de Barthes e visualizar o funcionamento de uma análise estrutural, dentro da
obra de Carlos Reis, sobre o conto “A Paga, de Miguel Torga” a proposta foi exercitada de mesmo modo. De
modo a concretizar tal feito, foram realizadas diversas leituras da obra de Poe. Após ressaltar uma questão a
fim de trabalhar a interpretação do texto, foi feito um estudo de diversos vocábulos inseridos no conto, tanto
em dicionários focados na simbologia quanto aqueles da língua portuguesa, a fim de obter informações mais
exclusivas. É válido lembrar que o conto foi trabalhado em sua versão traduzida para a língua portuguesa e,
como tal, nesta língua foi analisado. Relações simbólicas foram estabelecidas com a Teoria de Platão,
permitindo a sustentação e comprovação da hipótese levantada para a questão. O texto também apresentou
sua divisão em Seqüências, revelando um total de seis mudanças tonais em seu andamento. As funções
distribucionais e integrativas também foram decompostas. As distribucionais subdividiram-se em trinta
Funções Cardinais (ações) e oito Catálises (pausas). Já as integrativas possibilitaram nove informantes de
tempo ou espaço e totalizaram trinta e três Indícios que sustentaram a ligação da obra com a questão de
Platão.
4. Resultados
A resposta destas ações proporcionou uma nova interpretação da obra de Poe. A divisão estrutural não
modifica a interpretação aqui trabalhada, tanto que se comparada diferentes análises pode-se obter
semelhantes resultados. Já a interpretação pode variar de acordo a questão trabalhada. Para uma melhor
compreensão é de grande valia repassar o enredo de “Berenice”. É possível faze-lo através das funções
cardinais, que são ações responsáveis por alterações no desenvolvimento do enredo: “Egeu e Berenice
crescem juntos, mas diferentes, ele pobre de saúde ela ágil. A seguir Berenice fica doente. Egeu diz da
agilidade de sua própria doença, a monomania, dominando-o. A seguir é registrado o encontro de Egeu com
Berenice. A ação que se segue é de Egeu olhando-a, com anseio. Mas desvia o olhar para atingir em
seguida a visão de seus dentes. Berenice sai do aposento, mas mesmo assim Egeu continua a
contemplar-lhe os dentes, dando continuidade na próxima ação quando a monomania se apresenta
novamente. Sua fixação apenas cessa com um grito que ouve. Depois uma criada lhe diz que Berenice já
não existia. A ação seguinte retira Egeu de sua biblioteca, levando-o até o quarto da defunta. Alguém fala
com ele, perguntando se tinha interesse em ver o corpo. Sua resposta é observada na próxima ação,
quando ele ultrapassa as cortinas que envolvem o corpo e separa-se do mundo externo. Egeu sente o
incômodo que o corpo morto lhe apresenta e quer fugir. De repente, ele crê ter visto um dedo se mexer. Na
próxima ação, ele olha o cadáver que tem um lenço amarrado em seu queixo. Este lenço desata, e pode-se
ver que a boca de Berenice é aberta, já que seus dentes se mostram a Egeu. Egeu sai a correr. Ele
apresenta-se novamente na biblioteca e Berenice, enterrada. A seguir, Egeu está confuso e não sabe as
ações que precederam aquele momento. Ele olha ao redor e vê uma caixa familiar – do médico da família,
assim como vê um livro aberto, com uma frase destacada “Dicebant mihi sodales, si sepulchrum amicae
visitarem, curas meas aliquantulum fore levatas”. Ao lê-la sente-se incomodado. Um criado entra e começa a
falar-lhe com uma voz trêmula, rouca e baixa, contando que os empregados ouviram um grito e buscaram
pelo som. Havia o túmulo sido violado, e mais do que isso o corpo encontrava-se desfigurando e ainda vivo.
O criado mostra sinais de sangue e unha no corpo de Egeu. Na ação seguinte, mostra uma pá. Egeu grita e
busca alcançar o interior da caixa. Não consegue abri-la. A caixa se rompe ao cair no chão, espalhando
instrumentos cirúrgicos, assim como as trinta e duas peças brancas de marfim (os dentes de Berenice). A
leitura do conto incitou uma questão diante do comportamento do personagem Egeu. Por que motivo, o
personagem tem sobre sua mesa o livro aberto com a seguinte frase em destaque “Dicebant mihi sodales, si
sepulchrum amicae visitarem, curas meas aliquantulum fore levatas” (Diziam-me os amigos que, se eu
visitasse o túmulo da amiga, minhas preocupações seriam suavizadas)? Buscando compreender o texto
num nível simbólico-semântico é possível levantar a hipótese de que Egeu tomou conhecimento da
existência do Mundo das Idéias e queria atingi-lo, acreditando ser isso possível através de Berenice, que aos
seus olhos, estava conseguindo atingi-lo. Inicialmente foi retomado conceitos associados à Teoria de Platão.
O filósofo retrata a existência do Mundo dos Sentidos e o Mundo das Idéias. O Mundo Sensível formado de
incertezas apresenta elementos desintegráveis. Platão afirma que este é uma imagem do Mundo das Idéias,
o qual contém o elemento na sua forma mais pura, mais perfeita e integrada. Ou seja, os elementos básicos
2/4que se desintegram surgem de uma fonte eterna e imutável. As Idéias são imutáveis e proporcionam o
conhecimento seguro com uma Razão axiomática e igual para todos. O ser é ser em seu sentido pleno e
vive numa dimensão diferente do Mundo Sensível.O agente instigador desta associação provém da possível
admissão do personagem Egeu quanto à existência do Mundo das Idéias. Apesar de afirmar “Mas é
simplesmente ocioso dizer que não vivi antes... que a alma não tem nenhuma existência anterior.”, Egeu,
logo em seguida, declara a possibilidade de uma lembrança prévia “uma lembrança como uma sombra,
vaga, variável, indefinida, incerta”, fornecendo assim a primeira conjetura da existência do Mundo das Idéias.
Levando-se em conta que este se apresenta no Mundo dos Sentidos, há um esquecimento do Mundo das
Idéias, e o próprio Mundo Sensível não permite uma clareza tal qual como no mundo puro. Na ultima
sentença do parágrafo “como uma sombra também, me vejo na impossibilidade de desfazer-me dela
enquanto existir a luz de minha razão.”, Egeu se dá conta da existência de sua Alma no Plano Perfeito, mas
sendo apenas uma sombra no Mundo Sensível, ou seja, estando presente no Mundo dos Sentidos e
fazendo uso dele não é capaz de libertar-se parar atingir o outro Mundo. No primeiro parágrafo,
pós-epígrafe, catalítico e de caráter filosófico cita-se: “O infortúnio é múltiplo. A infelicidade, sobre a terra,
multiforme.” Pode-se observar que as frases se complementam ao compreendê-las pela Teoria de Platão: “o
infortúnio é múltiplo”. O Mundo dos Sentidos goza da multiplicidade e é infortuna sua imprecisão e
imperfeição diante do Mundo Puro. “A infelicidade, sobre a terra, multiforme.” Evidencia que a multiplicidade
está sobre o Mundo dos Sentidos, e que por isso a infelicidade (devido à imperfeição) tem muitas formas. A
comparação feita com o arco-íris leva-o a questionar: “Como é que pude obter da beleza um tipo de
fealdade? Como pude conseguir, do pacto de paz, um símile de tristeza? Mas, como na ética, o mal é uma
conseqüência do bem e, assim, na realidade, da alegria nasce a tristeza.”; tendo como resposta a
compreensão de que do Mundo Perfeito das Idéias nasce o Mundo Impreciso dos Sentidos. A relação de
termos opostos como bem e mal se unificam no Mundo das Idéias, mas são múltiplos e mutáveis nos
Sentidos (modificam a cada época e cultura, e por isso tornam-se múltiplos e conseqüência um do outro). Ao
atentar a perfeição dos dentes de Berenice, crê ser possível atingir o Mundo das Idéias através dela (“não
saíra do aposento desordenado de meu cérebro”). Ele era capaz de visualizar o perfeito em seu cérebro,
mesmo sem a presença do sensitivo. Este juízo sucede em “presentes em minha visão mental, e sua única
individualidade se transformou na essência de minha vida espiritual”. Esta relação torna-se explícita quanto
à significação dos dentes de sua prima para si: “Na parte final da obra, Egeu busca a caixa que pode ser
identificada como representação do inconsciente. Ao derrubá-la, “peças brancas, semelhantes ao marfim,
que se esparramaram, aqui e acolá, pelo assoalho.” caem os dentes de Berenice. O branco representa a
passagem, anterior a todo nascimento; a todo começo. O marfim simboliza a pureza, sendo ele inquebrável
e incorruptível. A partir das ações do texto é possível assumir a idéia de que Egeu visitou Berenice no
túmulo, a fim de retirar seus dentes, podendo tomar posse da pureza que ele representava, tranqüilizando
suas inquietações ao alcançar com êxito o Mundo das Idéias. É por isso que se encontrava grifada esta
frase no livro aberto sobre sua mesa em sua biblioteca. No ambiente da reserva do saber estava a resposta
em destaque para sua agitação. O título Berenice pode também ser interpretado. Berenice origina-se do
grego “Phereníke” ou “Bereníke” e significa portadora da vitória. Egeu foi vitorioso. Ele teve êxito ao
conseguir conquistar sua tarefa: atingir o mundo das Idéias. A epígrafe que se segue, a mesma frase
destacada do livro, revela já no início da obra que a personagem conseguiria triunfar ao visitar o túmulo da
amiga.
5. Considerações Finais
Estas são apenas algumas relações trabalhadas na análise em sua íntegra. Muitos termos tiveram seu perfil
simbólico extirpado para além de uma compreensão basilar. Assim sendo, este estudo possibilita alcançar
uma percepção longínqua do referente comum. Esta faculdade analítica é fator inicial e essencial para
desenvolver um senso crítico. Relacionar diversos conhecimentos permite o estudante ir além, atingindo um
entendimento amplo de questões gerais (unidade), não se limitando a aprendizados fracionados
(multiplicidade). Este efeito deve ser de primordial importância quando se reflete sobre a questão da
Educação, devendo ser sustentada não apenas na Universidade, como também anteriormente e
ultrapassando-a em sua posteridade.
3/4Referências Bibliográficas
BECKER, Udo. Dicionário de Símbolos. São Paulo: Paulus, 1999.
CHEVALIER, Jean. Dicionário de Símbolos: mitos, sonhos, costumes, gestos, formas, figuras. 5.ed. Rio de
Janeiro: José Olympio, 1991.
COSTA, Camille Vieira da. Dicionário de Nomes Próprios. 3. ed. São Paulo: Traco, 1988.
FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Dicionário Aurélio Eletrônico: século XXI. Versão 3.0. Editora
Nova Fronteira, nov. 1999.
GAARDNER, Jostein. O Mundo de Sofia. São Paulo: Cia das Letras, 1998. p. 97-106.
INSTITUTO ANTÔNIO HOUAISS. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva,
2001.
LURKER, Manfred. Dicionário de Simbologia. São Paulo: Martins Fontes, 1997.
OBATA, Regina. O livro dos nomes. São Paulo: Círculo do Livro, 1986.
POE, Edgar Allan. Berenice. In: ____. Histórias Extraordinárias. Tradução Breno Silveira e outros. Ed. São
Paulo: Abril Cultural, 1978. p. 53-65
REALE, Giovanni. Para uma nova interpretação de Platão. São Paulo: Loyola, 1997. p. 117-139.
REIS, Carlos. Técnicas de Análise Textual. Coimbra: Almedina, 1996. p. 226-251.
4/4




h5º Simposio de Ensino de Graduação
ANÁLISE ESTRUTURAL DO CONTO BERENICE - EDGAR ALLAN POE
Autor(es)
DANIELA RODRIGUES FELICIANO
Orientador(es)
Josiane Maria de Souza
1. Introdução
 Este trabalho tem como objetivo analisar o conto “Berenice” de Edgar Allan Poe, segundo as abordagens de
Roland Barthes apontando os elementos estruturais da narrativa. O personagem protagonista que é
dominado por uma monomania, possui um incontrolável desejo pelos dentes de Berenice.
2. Objetivos
 Análise Estrutural Os elementos estruturais foram agrupados em 5 seqüências (S): S1 –
Lembranças/recordações da infância, da juventude e da maturidade de Egeu; S2 – Comparação da conduta
de vida dos personagens Egeu (narrador protagonista) e Berenice; descrição de suas respectivas doenças:
monomania e epilepsia; S3 – Contemplação dos dentes de Berenice; S4 – Suposta morte e enterro de
Berenice; S5 – Constatação do “ataque cirúrgico” ao corpo de Berenice executado por Egeu.
3. Desenvolvimento
 Seqüência 1: “A desgraça é variada. (...) mas, na realidade, a minha absoluta e única existência.”. A 1ª
seqüência é caracterizada pelas lembranças do narrador. Apenas no meio do 1º parágrafo que
descobriremos que o narrador é personagem do conto através da utilização do “eu”. Nos parágrafos
seguintes percebemos que, além do narrador ser personagem, ele é o protagonista da história, pois começa
revelando seu nome – Egeu – e conta sua vida, lembranças de sua infância, juventude e maturidade. O
narrador nos revela ainda que desde muito jovem optou pelos livros ao invés das brincadeiras e
despreocupações de crianças, o que fez com que a biblioteca se tornasse o principal lugar de seu “refúgio”.
E ainda que na sua maturidade as realidades do mundo eram consideradas, por ele, visões e que apenas
suas idéias e devaneios eram sua real existência. Seqüência 2: “Berenice e eu éramos primos (...) e eu a
contemplara... não como um objeto para amar, mas como o tema da mais abstrusa, embora inconstante,
especulação.” A 2ª seqüência é iniciada pela revelação de um nome e do parentesco de uma moça:
Berenice, prima do narrador protagonista. Esta seqüência é marcada pela descrição e comparação da
1/4conduta de vida de ambos. O narrador nos revela que tanto ele, quanto ela era portadores de doença: ele,
que sempre viveu de má saúde, assumiu um caráter de monomaníaco e que piorava a cada dia em
conseqüência da primeira e fatal  doença de Berenice – “epilepsia que terminava em catalepsia, da qual
acordava repentinamente”. E a seqüência se desenvolve na explicação e descrição da monomania do
narrador justificando a maneira pela qual ele amava Berenice e nos leva a levantar a hipótese de que
Berenice tornara-se seu objeto de atenção. Nesta seqüência há um dos mais importantes informantes: a
duração da monomania do narrador - “Através do crepúsculo matutino, entre as sombras estriadas da
floresta, ao meio-dia, e no silêncio de minha biblioteca, à noite, esvoaçara ela diante de meus olhos e eu a
contemplara...”. Seqüência 3: “E agora... agora eu estremecia na sua presença (...) entre as luzes mutáveis
e as sombras do aposento.” A seqüência 3 inicia-se como que na volta para a realidade, sanidade. E é nesta
seqüência que as funções cardinais vão aparecer com mais freqüência. É também que o narrador vê os
dentes de Berenice e numa contemplação ininterrupta muda de objeto de atenção: da Berenice para seus
dentes. Mas por que os dentes? Talvez porque, naquela época de sua doença, nada mais era belo em sua
fisionomia, nada mais tinha sinais de alegria e beleza, nenhum sinal de agilidade, graça e exuberância “
nenhum vestígio da criatura de outrora se vislumbrava numa linha sequer de suas formas”... As únicas
coisas ainda perfeitas em Berenice eram os dentes. Seqüência 4: “Afinal explodiu em meio de meus sonhos
um grito (...) corri para fora daquele quarto de mistério, de horror e de morte...” A 4ª seqüência inicia-se com
a palavra “afinal”, nos dá uma idéia de que o personagem estava esperando alguma coisa acontecer para
despertá-lo do encanto dos dentes de Berenice e, em meio ao sonho, um grito faz com que haja uma total
mudança de assunto e de foco narrativo – antes, sentado lembrando dos dentes. Agora, em pé, diante da
notícia da morte de Berenice. Nesta seqüência encontramos indícios para justificar a hipótese que Berenice
ainda estava viva e que, provavelmente, encontrava-se numa das crises de catalepsia, na qual parecia estar
morta: “Ter-se-ia meu cérebro transviado? Ou o dedo da defunta se mexera no sudário que a envolvia? (...)
Haviam-lhe amarrado o queixo com um lenço, o qual, não sei como, se desatara. Os lábios lívidos se
torciam numa espécie de sorriso...”. O narrador desejava que Berenice estivesse morta, pois só assim
poderia possuir os seus dentes: “o cheiro característico do ataúde me fazia mal e imaginava que um odor
deletério se exalava já do cadáver”. Seqüência 5: “Achei-me de novo sentado na biblioteca (...) que se
espalharam por todo o assoalho.” Na 5ª seqüência encontram-se o clímax e o desfecho do conto. A
biblioteca por influência do narrador será o último espaço dos acontecimentos. Eis a prova de que a epígrafe
se justifica no decorrer da história: ela está contida numa das “páginas abertas de um livro, sobre uma
sentença sublinhada” e é um indício de que o narrador foi ao túmulo de Berenice – talvez, influenciado pela
própria frase sublinhada e aberta em sua mesa.
4. Resultados
   Nível Distribucional Funções Cardinais e Catálises: As funções cardinais (F) presentes no conto Berenice,
percebemos que ora o narrador as utiliza para recordar os fatos, ora para narrá-los. As catálises (C) têm a
função de descrever os personagens, sua vida - seja ela marcada pela saúde ou pela doença - elas também
têm a função de expressar os pensamentos e expor as lembranças do narrador.   Nível Integrativo
Informantes e Indícios: No nível integrativo é necessário destacar os principais indícios (I) e informantes (If),
que são a própria dinâmica de cada seqüência. Como em outros contos de Poe, a epígrafe é o primeiro
elemento que desperta a curiosidade e o interesse do leitor. Ao lermos o conto percebemos que a epígrafe –
se justificará e, com isso, podemos afirmar que ao iniciar o texto com um indício, Poe acentua ainda mais a
característica de “fantástica” à narrativa.
5. Considerações Finais
 Seqüência 5: F19 – “Achei-me de novo sentado na biblioteca, e de novo ali estava só. Parecia-me que,
havia pouco, despertara de um sonho confuso e agitado”. F20 – “Tentava decifrá-la, mas em vão; e de vez
em quando, como o espírito de um som evadido, parecia-me retinir nos ouvidos o grito agudo e lancinante
de uma voz de mulher. Eu fizera alguma coisa; que era, porém? Interrogava-me em voz alta e os ecos do
aposento me respondiam: Que era?”. F21 – “... por que estremecia eu ao contemplá-la?”. F22 – “Por que,
2/4então, ao lê-las, os cabelos de minha cabeça se eriçaram até a ponta, e o sangue de meu corpo se congelou
nas veias?” F23 – “Uma leve pancada soou na porta da biblioteca. E, pálido como o habitante de um
sepulcro, um criado entrou, na ponta dos pés”. F24 – “Ouvi frases truncadas. Falou-me de um grito
selvagem, que perturbara o silêncio da noite...” F25 – “... sua voz se tornou penetrantemente distinta, ao
falar-me de um túmulo violado... de um corpo desfigurado, desamortalhado, mas que ainda respirava, ainda
palpitava, ainda vivia!”. F26 – “Apontou para minhas roupas”. F27 – “Eu nada falava e ele pegou-me
levemente na mão”. F28 – “Chamou-me a atenção para certo objeto encostado à parede”. F29 – “Com um
grito, saltei para a mesa e agarrei a caixa que nela se achava. Mas não pude arrombá-la”.   As funções
acima fazem parte do desfecho do conto. Mas será somente a partir da (F23) que chegaremos ao clímax e
num final cheio de intriga; fazendo com que o leitor, induzido pelos indícios, tire sua própria conclusão. ****
C22 – “Sabia que era então meia-noite e bem ciente estava de que, desde o pôr-do-sol, Berenice tinha sido
enterrada. (...) Sua recordação, porém, estava repleta de horror, (...) medonhas e ininteligíveis recordações”.
C23 – “Sobre a mesa, a meu lado, ardia uma lâmpada e, perto dela, estava uma caixinha. (...) Eram as
palavras singulares, porém simples, do poeta Ebn Zaiat: Dicebant mihi sodales, si sepulchrum amicae
visitarem, curas meas aliquantulum fore levatas”. C24 – “Sua fisionomia estava transtornada de pavor e ele
me falou numa voz trêmula, rouca e muito baixa. Que disse?”. C25 – “... no meu tremor, ela deslizou de
minhas mãos e caiu com força, quebrando-se em pedaços. E dela, com um som tintinante, rolaram vários
instrumentos de cirurgia dentária, de mistura com trinta e duas coisas brancas, pequenas, como que de
marfim, que se espalharam por todo o assoalho”. As últimas catálises exercem papel fundamental para a
narrativa ser coesa e coerente. Serão através da descrição e explicação de alguns fatos é que vamos
‘colher’ indícios e informantes para justificar algumas ações e, principalmente ‘dar uma solução’ para a
monomania do narrador em relação a posse dos dentes. **** I15 – “Parecia-me que, havia pouco, despertara
de um sonho confuso e agitado”. I16 – “Mas, do que ocorrera durante esse tétrico intervalo, eu não tinha
qualquer percepção positiva, ou pelo menos definida (...) terror mais terrível porque ambíguo”. I17 – “... e de
vez em quando, como o espírito de um som evadido, parecia-me retinir nos ouvidos o grito agudo e
lancinante de uma voz de mulher. Eu fizera alguma coisa; que era, porém?”. I18 – “Sobre a mesa, a meu
lado, ardia uma lâmpada e, perto dela, estava uma caixinha”. I19 – “... e meus olhos, por fim, caíram sobre
as páginas abertas de um livro (...) e o sangue de meu corpo se congelou nas veias?”. I20 – “…um grito
selvagem, que perturbara o silêncio da noite...”. I21 – “…um túmulo violado...”. I22 – “... um corpo
desfigurado, desamortalhado, mas que ainda respirava, ainda palpitava, ainda vivia!”. I23 – “…minhas
roupas; estavam sujas de barro e de coágulos de sangue”. I24 – “…nas mãos; havia, gravadas nela, sinais
de unhas humanas”. I25 – “... era uma pá”. I26 – “... com um som tintinante, rolaram vários instrumentos de
cirurgia dentária, de mistura com trinta e duas coisas brancas, pequenas, como que de marfim...”. **** If27 –
“Sabia que era então meia-noite e bem ciente estava de que, desde o pôr-do-sol, Berenice tinha sido
enterrada”. If28 – “…e eu freqüentemente a vira antes, pois pertencia ao médico da família...”. If29 – “…saltei
para a mesa e agarrei a caixa que sobre ela jazia. Mas não pude arrombá-la; e, no meu tremor, ela deslizou
de minhas mãos e caiu com força, quebrando-se em pedaços”. Todos os indícios desta seqüência
levam-nos a concluir que Egeu – influenciado pela frase do poeta Ebn Zaiat – foi até o túmulo de Berenice e
violou-o. E, ao desenterrar o caixão da defunta, depara-se com ela viva: os gritos e as marcas de unhas em
suas mãos revelam que Berenice ainda encontrou forças, apesar da doença, para tentar impedi-lo. E, talvez
para disfarçar, colocou os dentes dela na caixinha que pertencia ao médico da família. Porém, o conto nos
deixa a dúvida se Berenice morreu ou não depois que Egeu arrancou-lhe os dentes. Se analisarmos (I23)
perceberemos que os criados chegaram ao túmulo depois de Egeu ter arrancado os dentes de Berenice e,
asseguraram-no de que “ainda respirava, ainda palpitava, ainda vivia!” o que nos leva a concluir que
Berenice ainda estava viva.
Referências Bibliográficas
POE, Edgar Allan. Berenice - Conto.
BARTHES, Roland. Narrativa - Elementos Estruturais.
3/44/4ttp://www.unimep.br/phpg/mostraacademica/anais/5mostra/4/204.pdf

EDGAR ALLAN POE "BERENICE"


BERENICE Conto de EDGAR ALLAN POE

por Elsa Caravana Guelman, sábado, 16 de Junho de 2012 às 14:29 ·
BERENICE –
Conto de  Edgar Allan Poe
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"A desgraça é variada. O infortúnio da terra é multiforme. Estendendo-se pelo vasto horizonte, como o arco-íris, suas cores são como as deste, variadas, distintas e, contudo, intimamente misturadas. Estendendo-se pelo vasto horizonte, como o arco-íris! Como é que, da beleza, derivei eu um exemplo de feiúra? Da aliança da paz, um símile de tristeza? Mas é que, assim como na ética o mal é uma conseqüência do bem, igualmente, na realidade, da alegria nasce a tristeza. Ou a lembrança da felicidade passada é a angústia de hoje, ou as agonias que existem agora têm sua origem nos êxtases que podiam ter existido
Meu nome de batismo é Egeu; o de minha família não o mencionarei. E, no entanto, não há torres no país mais vetustas do que as salas cinzentas e melancólicas do solar de meus avós. Nossa estirpe tem sido chamada uma raça de visionários. Em muitos pormenores notáveis, no caráter da mansão familiar, nos afrescos do salão principal, nas tapeçarias dos dormitórios, nas cinzeladuras de algumas colunas da sala de armas, porém mais especialmente na galeria de pinturas antigas, no estilo da biblioteca, e, por fim, na natureza muito peculiar dos livros que ela continha, há mais que suficiente evidência a garantir minha assertiva.
As recordações de meus primeiros anos estão intimamente ligadas àquela sala e aos seus volumes, dos quais nada mais direi. Ali morreu minha mãe. Ali nasci. Mas é ocioso dizer que eu não havia vivido antes, que a alma não tem existência prévia. Vós negais isto? Não discutamos o assunto. Convencido eu mesmo, não procuro convencer. Há, porém, uma lembrança de forma aérea, de olhos espirituais e expressivos, de sons musicais embora tristes; uma lembrança que jamais será apagada; uma reminiscência parecida a uma sombra, vaga, variável, indefinida, instável; e tão parecida a uma sombra, também, que me vejo na impossibilidade de livrar-me dela enquanto a luz de minha razão existir.
Foi naquele quarto que nasci. Emergindo assim da longa noite daquilo que parecia mas não era, o nada, para logo cair nas mesmas regiões da terra das fadas, num palácio fantástico, nos estranhos domínios do pensamento monástico e da erudição, não é de estranhar que tenha eu lançado em torno de mim um olhar ardente e espantado, que tenha consumido minha infância nos livros e dissipado minha juventude em devaneios; mas é estranho que, com o correr dos anos, e tendo o apogeu da maturidade me encontrado ainda na mansão de meus pais; é maravilhoso que a inércia tenha tombado sobre as fontes da minha vida; é maravilhoso como total inversão se operou na natureza de meus pensamentos mais comuns. As realidades do mundo me afetavam como visões, e somente como visões, enquanto as loucas idéias da terra dos sonhos tornavam-se, por sua vez, não o estofo de minha existência cotidiana, mas, na realidade, a própria existência em si, completa e unicamente.
Berenice e eu éramos primos e crescemos juntos no solar paterno. Mas crescemos diferentemente: eu, de má saúde e mergulhado na minha melancolia, ela, ágil, graciosa e exuberante de energia; ela, entregue aos passeios pelas encostas da colina, eu, aos estudos no claustro. Eu, encerrado dentro do meu próprio coração e dedicado, de corpo e alma, à mais intensa e penosa meditação, ela, divagando descuidosa pela vida, sem pensar em sombras no seu caminho ou no vôo saliente das horas de asas lutulentas. Berenice! – invoco-lhe o nome – Berenice! – e das ruínas sombrias da memória repontam milhares de tumultuosas recordações ao som da invocação! Ah! bem viva tenho agora a sua imagem diante de mim, como nos velhos dias de sua jovialidade e alegria! Oh! deslumbrante, porém fantástica beleza! Oh! sílfide entre arbustos de Arnheim! Oh! náiade entre as suas fontes! E depois. . . depois tudo é mistério e horror, uma história que não deveria ser contada. Uma doença, uma fatal doença, soprou, como o simum, sobre seu corpo. E precisamente quando a contemplava, o espírito da metamorfose arrojou-se sobre ela invadindo-lhe a mente, os hábitos e o caráter e, da maneira mais sutil e terrível, perturbando-lhe a própria personalidade! Ah! o destruidor veio e se foi! E a vítima. . . onde estava ela? Não a conhecia. . . ou não mais a conhecia como Berenice!
Entre a numerosa série de males, acarretados por aquele fatal e primeiro que ocasionou uma revolução de tão horrível espécie no ser moral e físico de minha prima, pode-se mencionar como o mais aflitivo e obstinado em sua natureza, uma espécie de epilepsia, que, não raro, terminava em transe cataléptico, transe muito semelhante à morte efetiva e da qual despertava ela quase sempre duma maneira assustadoramente subitânea. Entrementes, minha própria doença – pois me fora dito que eu não poderia dar-lhe outro nome – minha própria doença aumentou e assumiu afinal um caráter de monomania, de forma nova e extraordinária, e a cada hora e momento crescia em vigor e por fim veio a adquirir sobre mim a mais incompreensível ascendência. Esta monomania, se devo assim chamá-la, consistia numa irritabilidade mórbida daquelas faculdades do espírito denominadas pela ciência metafísica “faculdades da atenção “. É mais que provável não me entenderem, mas temo, deveras, que me seja totalmente impossível transmitir à mente do comum dos leitores uma idéia adequada daquela nervosa INTENSIDADE DE ATENÇÃO com que, no meu caso, as faculdades meditativas (para evitar a linguagem técnica) se aplicavam e absorviam na contemplação dos mais vulgares objetos do mundo.
Meditar infatigavelmente longas horas, com a atenção voltada para alguma frase frívola, à margem de um livro ou no seu aspecto tipográfico; ficar absorto, durante a melhor parte dum dia de verão, na contemplação duma sombra extravagante, projetada obliquamente sobre a tapeçaria, ou sobre o soalho; perder uma noite inteira olhando a chama imóvel duma lâmpada, ou as brasas de um fogão; sonhar dias inteiros com o perfume de uma flor; repetir, monotonamente, alguma palavra comum, até que o som, à força da repetição freqüente, cessasse de representar ao espírito a menor idéia, qualquer que fosse; perder toda a noção de movimento ou de existência física, em virtude de uma absoluta quietação do corpo, prolongada e obstinadamente mantida – tais eram os mais comuns e menos perniciosos caprichos provocados por um estado de minhas faculdades mentais, não, de fato, absolutamente sem paralelo, mas certamente desafiando qualquer espécie de análise ou explicação.
Sejamos, porém, mais explícitos. A excessiva, ávida e mórbida atenção assim excitada por objetos, em sua própria natureza triviais, não deve ser confundida, a propósito, com aquela propensão ruminativa comum a toda a humanidade e, mais especialmente, do agrado das pessoas de imaginação ardente. Nem era tampouco, como se poderia a princípio supor, um estado extremo, ou um a exageração de tal propensão, mas primária e essencialmente distinta e diferente dela. Naquele caso, o sonhador ou entusiasta, estando interessado por um objeto, geralmente não trivial, perde imperceptivelmente de vista esse objeto através duma imensidade de deduções, e sugestões dele provindas, até que, chegando ao fim daquele sonho acordado, muitas vezes repleto de voluptuosidade, descobre estar o incitamentum, ou causa primeira de suas meditações, inteiramente esvanecido e esquecido. No meu caso, o ponto de partida era invariavelmente frívolo, embora assumisse, por força de minha visão doentia, uma importância irreal e refratada. Nenhuma ou poucas reflexões eram feitas e estas poucas voltavam, obstinadamente, ao objeto primitivo, como a um centro. As meditações nunca eram agradáveis, e, ao fim do devaneio, a causa primeira, longe de estar fora de vista, atingira aquele interesse sobrenaturalmente exagerado, que era a característica principal da doença. Em uma palavra, as faculdades da ment
e, mais particularmente exercitadas em mim, eram, como já disse antes, as da atenção ao passo que no sonhador-acordado são as especulativas.
Naquela época, os meus livros, se não contribuíam efetivamente para irritar a moléstia, participavam largamente, como é fácil perce-ber-se, pela sua natureza imaginativa e inconseqüente, das qualidades características da própria doença. Bem me lembro, entre outros, do tratado do nobre italiano Coelius Secundus Curio ‘De AMPLITUDINE BEATI REGNI DEI;” da grande obra de Santo Agostinho, “A CIDADE DE DEUS”; do “De CARNE CHRISTI”, de Tertuliano, no qual a paradoxal sentença: MORTUS EST DEI FILIUS; CREDIBILE EST QUIA INEPTUM EST: ET SEPULTUS RESUR-REXIT; CERTUM EST QUIA IMPOSSIBiLE EST”, absorveu meu tempo todo, durante semanas de laboriosa e infrutífera investigação.
Dessa forma, minha razão perturbada, no seu equilíbrio, por coisas simplesmente triviais, assemelhava-se àquele penhasco marítimo, de que fala Ptolomeu Hefestião, que resistia inabalável aos ataques da violência humana e ao furioso ataque das águas e dos ventos, mas tremia ao simples toque da flor chamada asfódelo. E embora a um pensador desatento possa parecer fora de dúvida que a alteração produzida pela lastimável moléstia no estado moral de Berenice fornecesse motivos vários para o exercício daquela intensa e anormal meditação, cuja natureza tive dificuldades em explicar, contudo tal não se deu absolutamente. Nos intervalos lúcidos de minha enfermidade, a desgraça que a feria me mortificava realmente, e me afetava fundamente o coração aquela ruína total de sua vida alegre e doce. Por isso não deixava de refletir muitas vezes, e amargamente, nas causas prodigiosas que tinham tão subitamente produzido modificações tão estranhas. Mas essas reflexões não participavam da idiossincrasia de minha doença, e eram as mesmas que teriam ocorrido, em idênticas circunstâncias, à massa ordinária dos homens. Fiel a seu próprio caráter, minha desordem mental preocupava-se com as menos importantes, porém mais chocantes mudanças, operadas na constituição física de Berenice, na estranha e verdadeiramente espantosa alteração de sua personalidade.
De modo algum, jamais a amara durante os dias mais brilhantes de sua incomparável beleza. Na estranha anomalia de minha existência, os sentimentos nunca me provinham do coração, e minhas paixões eram sempre do espírito. Através do crepúsculo matutino, entre as sombras estriadas da floresta, ao meio-dia, e no silêncio de minha biblioteca, à noite, esvoaçara ela diante de meus olhos e eu a contemplara, não como a viva e respirante Berenice, mas como a Berenice de um sonho; não como um ser da terra, terreno, mas como a abstração de tal ser; não como coisa para admirar, mas para analisar; não como um objeto de amor, mas como o tema da mais abstrusa, embora inconstante, especulação. E agora. . . agora eu estremecia na sua presença e empalidecia à sua aproximação; embora lamentando amargamente sua decadência, e sua desolada condição, lembrei-me de que ela me amava desde há muito e num momento fatal, falei-lhe em casamento.
Aproximava-se, enfim, o período de nossas núpcias quando, numa tarde de inverno, de um daqueles dias intempestivamente cálidos, sossegados e nevoentos, que são a alma do belo Alcíone, sentei-me no mais recôndito gabinete da biblioteca. Julgava estar sozinho, mas, erguendo a vista, divisei Berenice, em pé à minha frente.
Foi a minha própria imaginação excitada, ou a nevoenta influência da atmosfera, ou o crepúsculo impreciso do aposento, ou as cinzentas roupagens que lhe caiam em torno do corpo, que lhe deram aquele contorno indeciso e vacilante? Não sei dizê-lo. Ela não disse uma palavra e eu, por forma alguma, podia emitir uma só sílaba. Um gélido calafrio correu-me pelo corpo, uma sensação de intolerável ansiedade me oprimia, uma curiosidade devoradora invadiu-me a alma e, recostando-me na cadeira, permaneci por algum tempo imóvel e sem respirar, com os olhos fixos no seu vulto. Ai! sua magreza era excessiva e nenhum vestígio da criatura de outrora se vislumbrava numa linha sequer de suas formas. O meu olhar ardente pousou-se afinal em seu rosto.
A fronte era alta e muito pálida e de uma placidez singular. O cabelo, outrora negro, de azeviche, caía-lhe parcialmente sobre a testa e sombreava as fontes encovadas com numerosos anéis, agora dum amarelo vivo, discordando, pelo seu caráter fantástico, da melancolia reinante em suas feições. Os olhos, sem vida e sem brilho, pareciam estar desprovidos de pupilas, e desviei involuntariamente a vista de sua fixidez vítrea para contemplar-lhe os lábios delgados e contraídos. Entreabriram-se e, num sorriso bem significativo, os dentes da Berenice transformada se foram lentamente mostrando. Prouvera a Deus nunca os tivesse visto, ou que, tendo-os visto, tivesse morrido!
O batido duma porta me assustou e, erguendo a vista, vi que minha prima havia abandonado o aposento. Mas do aposento desordenado do meu cérebro não havia saído, ai de mim! e não queria sair, o espectro branco e horrível de seus dentes. Nem uma mancha se via em sua superfície, nem um matiz em seu esmalte, nem uma falha nas suas bordas, que aquele breve tempo de seu sorriso não me houvesse gravado na memória. Via-os agora, mesmo mais distintamente do que os vira antes. Os dentes!. . – Os dentes! Estavam aqui e ali e por toda a parte, visíveis, palpáveis, diante de mim. Compridos, estreitos e excessivamente brancos, com os pálidos lábios contraídos sobre eles, como no instante mesmo do seu primeiro e terrível crescimento. Então desencadeou-se a plena fúria de minha monomania e em vão lutei contra sua estranha e irresistível influência. Os múltiplos objetos do mundo exterior não me despertavam outro pensamento que não fosse o daqueles dentes, Queria-os com frenético desejo. Todos os assuntos e todos os interesses diversos foram absorvidos por aquela exclusiva contemplação. Eles. Somente eles estavam presentes aos olhos de meu espírito, e eles, na sua única individualidade, se tornaram a essência de minha vida mental. Via-os sob todos os aspectos. Revolvia-os em todas as suas peculiaridades. Meditava em sua conformação. Refletia na alteração de sua natureza. Estremecia ao atribuir-lhes, em imaginação, faculdades de sentimento e sensação e, mesmo quando desprovidos dos lábios, capacidade de expressão moral. Dizia-se, com razão, de Mademoiselle de Sallé; que tous ses pas êtaient des sentiments” e de Berenice, com mais séria razão acreditava “que toutes ses dents étaient des idées”. Idées! Ah! esse foi o pensamento absurdo que me destruiu! Des idées! ah! eis porque eu os cobiçava tão loucamente! Sentia que somente a posse deles poderia restituir-me a paz, e devolver-me a razão.
E assim cerrou-se a noite em torno de mim. Vieram as trevas, demoraram, foram embora. E o dia raiou mais uma vez. E os nevoeiros de uma segunda noite de novo se adensavam em torno de mim. E eu ainda continuava sentado, imóvel, naquele quarto solitário, ainda mergulhado em minha meditação, ainda com o fantasma dos dentes, mantendo sua terrível ascendência sobre mim, a flutuar, com a mais viva e hedionda nitidez, entre as luzes e sombras mutáveis do aposento. Afinal, explodiu em meio de meus sonhos um grito de horror e de consternação, ao qual se seguiu, depois de uma pausa, o som de vozes aflitas, entremeadas de surdos lamentos de tristeza e pesar. Levantei-me e, escancarando uma das portas da biblioteca, vi, de pé, na antecâmara, uma criada, toda em lágrimas, que me disse que Berenice não mais. . – vivia! Fora tomada de um ataque epiléptico pela manhã e agora ao cair da noite, a cova estava pronta para receber seu morador e todos os preparativos do enterro estavam terminados.
Com o coração cheio de angústia, oprimido pelo temor, dirigi-me, com repugnância, para o quarto de dormir da defunta. Era um quarto vasto, muito escuro, e eu me chocava, a cada passo, com os preparativos do sepultamento. Os cortinados do leito, disse-me um criado, estavam fechados sobre o ataúde e naquele ataúde, acrescentou ele, em voz baixa, jazia tudo quanto restava de Berenice.
Quem, pois, me perguntou se eu não queria ver o corpo ?- Não vi moverem-se os lábios de ninguém; entretanto, a pergunta fora realmente feita e o eco das últimas sílabas ainda se arrastava pelo quarto. Era impossível resistir e, com uma sensação opressiva, dirigi-me a passos tardos para o leito. Ergui de manso as sombrias dobras das cortinas mas, deixando-as cair de novo, desceram elas sobre meus ombros e, separando-me do mundo dos vivos, me encerraram na mais estreita comunhão com a defunta.
Todo o ar do quarto respirava morte; mas o cheiro característico do ataúde me fazia mal e imaginava que um odor deletério se exalava já do cadáver. Teria dado mundos para escapar, para livrar-me da perniciosa influência mortuária, para respirar, uma vez ainda, o ar puro dos céus eternos. Mas, faleciam-me as forças para mover-me, meus joelhos tremiam e me sentia como que enraizado no solo, contemplando fixamente o rígido cadáver, estendido ao comprido, no caixão aberto.
Deus do céu! Seria possível? Ter-se-ia meu cérebro transviado? Ou o dedo da defunta se mexera no sudário que a envolvia? Tremendo de inexprimível terror, ergui lentamente os olhos para ver o rosto do cadáver. Haviam-lhe amarrado o queixo com um lenço, o qual, não sei como, se desatara. Os lábios lívidos se torciam numa espécie de sorriso, e, por entre sua moldura melancólica, os dentes de Berenice, brancos luzentes, terríveis, me fixavam ainda, com uma realidade demasiado vivida. Afastei-me convulsivamente do leito e sem pronunciar uma palavra, como louco, corri para fora daquele quarto de mistério, de horror e de morte.
Achei-me de novo sentado na biblioteca, e de novo ali estava só. Parecia-me que, havia pouco, despertara de um sonho confuso e agitado. Sabia que era então meia-noite e bem ciente estava de que, desde o pôr-do-sol, Berenice tinha sido enterrada. Mas, do que ocorrera durante esse tétrico intervalo, eu não tinha qualquer percepção positiva, ou pelo menos definida. Sua recordação, porém, estava repleta de horror, horror mais horrível porque impreciso, terror mais terrível porque ambíguo. Era uma página espantosa do registro de minha existência, toda escrita com sombrias, medonhas e ininteligíveis recordações. Tentava decifrá-la, mas em vão; e de vez em quando, como o espírito de um som evadido, parecia-me retinir nos ouvidos o grito agudo e lancinante de uma voz de mulher. Eu fizera alguma coisa; que era, porém? Interrogava-me em voz alta e os ecos do aposento me respondiam “Que era?”
Sobre a mesa, a meu lado, ardia uma lâmpada e, perto dela, estava uma caixinha. Não era de aspecto digno de nota e eu freqüentemente a vira antes, pois pertencia ao médico da família; mas, como viera ter ali, sobre minha mesa, e por que estremecia eu ao contemplá-la? Não valia a pena importar-me com tais coisas e meus olhos, por fim, caíram sobre as páginas abertas de um livro e sobre uma sentença nelas sublinhada. Eram as palavras singulares, porém simples, do poeta Ebn Zaiat: “Dicebant mihi sodales, si sepulchrum amicae visitarem, curas meas aliquantulum fore levatas’. Por que, então, ao lê-las, os cabelos de minha cabeça se eriçaram até a ponta, e o sangue de meu corpo se congelou nas veias?
Uma leve pancada soou na porta da biblioteca e, pálido como o habitante de um sepulcro, um criado entrou, na ponta dos pés. Sua fisionomia estava transtornada de pavor e ele me falou em voz trêmula, rouca e muito baixa. Que disse? Ouvi frases truncadas. Falou-me de um grito selvagem, que perturbara o silêncio da noite. -da acorrência dos moradores da casa. – - de uma busca do lugar de onde viera o som. E depois sua voz se tornou penetrantemente distinta, ao murmurar a respeito de um túmulo violado — . de um corpo desfigurado, desamortalhado, mas ainda respirante, ainda pal-pitante, ainda vivo!
Apontou para minhas roupas; estavam sujas de barro e de coágulos de sangue. Eu nada falava e ele pegou-me levemente na mão; havia, gravadas nela, sinais de unhas humanas. Chamou-me a atenção para certo objeto encostado à parede, que contemplei por alguns minutos: era uma pá.
Com um grito, saltei para a mesa e agarrei a caixa que sobre ela jazia. Mas não pude arrombá-la; e, no meu tremor, ela deslizou de minhas mãos e caiu com força, quebrando-se em pedaços. E dela, com um som tintinante, rolaram vários instrumentos de cirurgia dentária, de mistura com trinta e duas coisas brancas, pequenas, como que de marfim, que se espalharam por todo o assoalho. "
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Edgar Allan Poe. Histórias Extraordinárias
Edgar Allan Poe's "Berenice"
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segunda-feira, 28 de maio de 2012

LE PETIT PAN DE MUR JAUNE - Marcel Proust: Vue de Delft de Vermeer. - De ELSA CARAVANA GUELMAN





Le Petit Pan de Mur Jaune  -   Vue de Delft    -     Marcel Proust

                                                                   
                                                                     essentialvermeer


Assim como em 1921 Marcel Proust tomou conhecimento dos artigos de Vaudoyer na imprensa sobre o quadro ‘La  Vue de Delft” de Vermeer,  na exposição holandesa no Museu Jeu de Paume e se motivou intensamente sobre o quadro que considerava o mais belo do mundo, assim também poderia ter tido conhecimento dos artigos de Théophile Thoré-Burger sobre  Vermeer, antes de sua visita à Haia, em 1902,  interessando-lhe conhecer a obra descoberta para os franceses  pelo crítico, pois nada o impediria de ler esses artigos, já que era tão apaixonado por pintura e tinha a imprensa ao seu dispor, residindo em Paris, onde foram publicados, também.
Sobre a pintura da Holanda em Paris, o que poderia ter, também, despertado em Proust o interesse pelos pintores flamengos, consta que  em 1895, Robert de Montesquiou havia organizado uma coletânea de  obras sob o título « Néerlandises » . Assim, antes de partir em busca de conhecimentos da arte holandesa,  Proust poderia ter tido conhecimento dessa coletânea.  Mas é sobre sua viagem de 1902 à Holanda  que Proust retrata, numa carta escrita em 1907,  com segurança,  suas recordações  da pintura holandesa à princesa de Caramam-Chimay (Hélène Bibesco-Bessaraba de Brancovan),  aconselhando-a a fazer uma viagem semelhante para conhecer a pintura holandesa e notadamente Vermeer.
Na verdade, em 1842, visitando o museu de Haia, Mauritshuis ( Casa de Maurício), Théophile Thoré-Burger viu pela primeira vez o quadro la Vue de Delft, pois nem conhecia o pintor Vermeer e só teve conhecimento dele pelo catálogo do museu. Uma das versões da sua visita,  mostra-o verdadeiramente extasiado, tomado de violenta emoção diante do quadro que considerou perfeito. Dessa época em diante passou a divulgar a obra de Vermeer, descobrindo, inclusive, vários quadros do pintor que apareciam com  o nome de outros pintores. Foi um trabalho árduo e apaixonante, do qual logrou pleno êxito.
O crítico de arte Jean Louis Vaudoyer, amigo íntimo de Marcel Proust,  em razão da exposição de 1921, avivou o conhecimento dos franceses sobre o pintor, interpretando-o como “misterioso”, em 3 artigos.  Não era o caso de Marcel, que já o conhecia de Haia, de 1902. Mas, mesmo assim,  Marcel leu os artigos que lhe despertaram o desejo de rever o quadro do qual guardava  uma lembrança bem viva. Com a saúde debilitada, Marcel resolveu, mesmo assim, ir à exposição no Jeu de Paume em companhia do crítico amigo Vaudoyer.
Após conseguir vencer a escadaria, passou mal, ficou tonto, tropeçou,  quase  caiu, alegando, no fim, uma indisposição alimentar e, finalmente, viu-se diante do quadro tão amado La Vue de Delft. Talvez nem acreditasse estar diante da obra prima, do quadro mais belo do mundo,  como já se referira, era como se recebesse um presente da Holanda.
O que, verdadeiramente,  se passou diante do quadro é um mistério que ainda não foi resolvido, apesar de tantas pesquisas e  referências literárias a respeito.  Na verdade,  Marcel estava mal, quem sabe com a visão imperfeita, devido ao  mal estar sofrido e não teve a mesma  amplitude diante da pintura como em Haia, em 1902, quando afirmou “Depuis que j’ai vu au musée de la Haye la vue de Delft, j’ai su que j’avais vu “le plus beau tableau  du monde.” Diante do quadro procura trazer a imagem captada do passado que o deslumbrara, e que sua mente guardou já, agora, com a nova visão crítico-poética sobre os “mistérios’ de Vermeer de  Vaudoyer.
Teria mudado alguma coisa ? A disposição do quadro ou a visão de Marcel? Cabe uma pergunta: será que o comando cerebral, realmente, já teria arquivado a visão  do “petit pan de mur  jaune”? A sensação que acompanhou sua descoberta em 1902 pode ter enriquecido a visão que foi arquivada na mente do jeito que a viu, sem que nada ficasse ou fosse esquecido, mantendo-se intacto por esses anos todos.  O que pode parecer, para muitas pessoas,  esse pequeno detalhe uma insignificância, para Marcel  era uma simbologia, um signo poderoso, gritante e vivo para retratar o verdadeiro sentido da obra sob os efeitos da luz e da cor numa paisagem urbana emoldurada ainda  pelos raios do sol.


                                           Vue de Delft  -     bacrie.com


As nossas observações carecem de maiores fundamentos, de fatos mais precisos porque não lemos os artigos escritos por Théophile Thoré-Burger e Vaudoyer, portanto não os conhecemos na íntegra.    Caímos, então, no terreno da especulação. Se o primeiro, Thoré, descobre o pintor para o mundo da arte, julgando-o fantástico e misterioso,  o segundo, que tomou conhecimento dessa descoberta, como toda crítica francesa,   envolve-o numa característica de maior mistério ao trazer nova visão à sua pintura.
A visão momentânea, que foi, então,  conservada nos escaninhos  do cérebro – memória esquecida – por anos e anos a fio, quando ressurge, um dia,  será a mesma da visão do passado, original ?  A sensação do retorno da memória poderá se  enriquecer com a repetição ou se empobrecer diante de fatores negativos que a envolvam? Aquilo que, realmente, marcou profundamente, acreditamos que não, como foi o célebre episódio da Madeleine, que deu início a uma série de recordações que viriam povoar a mente do relator da Recherche na escolha de sua vocação literária.
Chegamos à conclusão de que Marcel Proust, em 1902, não tinha conhecimento do quadro Vue de Delft de Vermeer. Poderia saber da existência do pintor, mas não lhe conhecia a famosa pintura. Ao que tudo indica, ele viu, realmente , o quadro pela primeira vez em 1902, em Haia. Não teria, pois, lido os artigos de  Thoré, ressuscitando Vermeer. Conhecia, desse modo,  a pintura holandesa pela consulta do livro de Fromentin, “Les Maîtres d’autrefois”. E nesse livro a referência a Vermeer é muito pequena, não passando de três linhas.  Quando visitou  a Holanda em 1898 tinha o interesse voltado para  Rembrant,  Frans Hals, Pieter de  Hooch. Só em 1902, em Haia, Marcel Proust faz sua  grande descoberta ao se ver diante  da Vue de Delft, que o deixa fascinado a ponto de passar a  considerar Vermeer seu pintor predileto. Em seu romance diz  que todas as pessoas cultas deviam conhecer Vermeer . Não mais afastou seu pensamento da pintura de Vermeer, fazendo-o penetrar em toda Recherche. Da visão de 1902 para a visão de 1921, o que mudou, verdadeiramente? Da primeira visão, conserva-se a afirmação extasiada de que vira o quadro mais belo do mundo.  O que surge de diferente após sua visita ao Jeu de  Paumne ? Como teria surgido o petit pan de mur jaune? Os artigos de Vaudoyer que levaram Marcel  à exposição ?
Marcel Proust, que  não escreveu nada sobre sua visita em 1921 ao museu Jeu de Paume,  em companhia de seu amigo Vaudoyer, caminhava, no dia da exposição,  com o busto curvado,  trajando roupa escura e sóbria, um chapéu alto e uma bengala, mas  não querendo demonstrar que sua doença o aniquilava, depois de uma noite difícil, tentando abrir os olhos sob um sol ofuscante.   Na verdade ele   se utilizou do que motivou sua ida à exposição --  os artigos consagrados ao misterioso Vermeer -- e o que verdadeiramente sentiu diante do quadro para redigir a cena da morte do escritor Bergotte. Sua curiosidade, segundo George D. Painter,  foi despertada pelos artigos de Vaudoyer, publicados em L’Opinion,  com certeza, pelos “oitões (paredes laterais) que  lembravam preciosos objetos chineses”, os elogios  de Melle.  Misme referindo-se aos “matizes dos telhados azulados ou vermelhos, os muros-cor-de-rosa,  a triste água verde e a margem  amarela do rio”. Conseguiu, então,  perceber a “ pequena mancha de amarelo na parede” facilmente. Daí, no entendimento de Painter, Marcel Proust  viu, na parte inferior direita do quadro, logo à  esquerda da primeira  torre da comporta mergulhada em sombra,  um fragmento de telhado colhido pelo sol daquela eterna tarde de verão com a meia-água de sua distante janela de sótão. Sob  ela surgiu a “pequena mancha de amarelo do muro”.

                                         Detalhe Vue de Delft -  art-deco.france.pagesperso-orange.fr

Entendemos que  Luc Fraisse, ao analisar  e comparar os trechos mais importantes dos artigos de Vaudoyer sobre Vermeer  e os do episódio da morte de Bergotte,  concluiu com muita precisão o seguinte:
“De certo modo, todos os elementos que entrariam na composição do célebre “petit pan de mur jaune” foram finamente focalizados por Jean-Louis-Vaudoyer. Todavia, essa mistura íntima,  essa vasta interpretação, essa imensa força, enfim , conferida ao petit pan do quadro que se revela o fragmento de Vermeer, o fragmento ao qual todo artista deve consagrar sua vida, considerando-o a obra-prima acabada de sua arte – todo esse conjunto posterior foi de Proust, unicamente de Proust, seu inventor.”
Outro crítico pesquisador,  Charles Seymour Jr., formulou a hipótese de Vermeer ter-se utilizado de uma câmara  escura para depois conseguir os efeitos de luz sobre a pintura. Acreditava que a visão de Vermeer não teria nascido da visão direta da realidade, mas de uma imagem refratada por intermédio de uma lente. Essa apreciação crítica não interfere no interesse de Marcel Proust pela luminosidade do quadro..
Segundo Kazuyoshi Yoshikawa Proust teria  também se inspirado nessa passagem de Vaudoyer:  “ces maisons de briques, peintes dans une matière si precieuse, si massive,  si pleine,  que,  si vous  en isolez une petite surface em oubliant le sujet, vous  croyez  avoir sous les  yeux aussi bien  de la céramique que de la peinture.”. Nessa crítica aparece a expressão “une petite surface”.  Para ele, então,  a expressão “petit pan de mur jaune” não se encontra nos artigos do crítico, sendo, portanto, uma invenção de Proust. Assim também pensam Jean Milly e, como já se analisou, Luc Fraisse. Desse modo, para alguns,  quando o quadro é visto em cosonância com o texto de Proust, pode-se localizar a presença particular desse muro,  que é impregnado de um sol  amarelo ao lado da Porta de Rotterdam. Muitos não o reconhecem lá o “petit pan de mur jaune” , dizendo que o que aparece é um teto e não um muro. Reconhecem  à extrema direita do quadro o muro sobre o qual transborda o alpendre do  telhado da casa vizinha.
 Proust  coloca o escritor Bergotte, personagem fictício de “A Prisioneira”,   diante do quadro de Vermeer. Bergotte  compreende que não conseguiu atingir a seu verdadeiro ideal artístico. E isso porque,  para Proust,  o petit pan de mur jaune – o símbolo da perfeição -- representa a realização máxima da arte que ele, também, desejou atingir em sua vida literária  como Vermeer conseguiu em sua pintura . O que poderia representar aquele muro ?  Bergotte viu um muro nu, e esse muro nu poderia ensejar muita coisa. Em segundos se transformou,  teve a nítida impressão de estar diante de um verdadeiro muro e não de um muro que o artista pintou o mais fielmente possível vendo um muro verdadeiro.   O muro do quadro, então,  salta como a mais viva realidade, em sua vivência mágica.. É a perfeição máxima em pintura, pois ela funciona como verdade absoluta e não como uma excelente cópia da  paisagem. Bergotte vê pela primeira vez as cores salientes do quadro: o rosa, o azul e o amarelo dourado, simbolizando o desejo, a veneração e a arte. Ele, então, compreende que deveria ter mais cores nos seus textos literários.

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O que Bergotte (isto é, Proust no Jeu de Paume, em 1921) viu --  petit pan de mur jaune --  no quadro de  Vermeer   existiu mesmo?  A verdade é que aquele petit pan já fazia parte do souvenir de Proust quando ele  se refere a Combray e evoca um clarão luminoso (De cote de chez Swann – Combray – 1ª. Parte).
“Desse modo, por bastante tempo, quando acordava de noite e me vinha  a recordação de Combray, nunca consegui rever mais que aquela espécie de traço ou lanço luminoso (pan lumineux), que era recortado no meio de trevas indiferenciadas, semelhante aos que o acender de um fogo de artifício ou certa projeção elétrica iluminam e seccionam em um prédio cujas outras partes permanecem escuras e  mergulhadas dentro da noite: na base, muito larga, o pequeno salão, a sala de jantar, o trilho da alameda escura por onde  surgiria o Sr. Swann, inconsciente  autor das minhas tristezas, o vestíbulo  por onde me levaria para o primeiro degrau da escada, tão difícil de subir, que, por si só, constituía  o tronco bastante estreito daquela pirâmide irregular;”
 Sobre o assunto, Luc Fraisse  esclarece que este pequeno pan “introduzido muito tarde, em 1921, no romance , era como se estivesse  sendo aguardado desde cedo, sempre, pela obra.”  Deste modo o pan vermeeriano corresponde ao clarão luminoso ou iluminado do quarto de dormir onde o menino, no começo da Recherche,  aguardava ansioso o beijo de sua mãe, após a saída de Swann. Ainda em  Combray, em noites, antes do jantar,  via o seu mundo pelo foco de uma lanterna mágica, “que substituía a opacidade dos muros pelas impalpáveis irisações de sobrenaturais aparições multicoloridas” Sabe-se que a irisação  se dá com  a produção de cores  do arco-íris  por refração da luz. O fenômeno da cor tem grande importância na  Recherche.  Ele via  as cenas coloridas em que Golo, de vermelho, ameaçava Geneviéve de Brabant, de azul, no interior de uma floresta verde, nas proximidades do castelo em amarelo. Uma sinfonia de cores perpassava diante de seus olhos ávidos pelo desenrolar da história, enquanto seu jantar era preparado.



Germaine Brée relata que a vista de Delft já  estava presente na descrição de Proust da igreja de Combray, em No caminho de Swann:
“A luz intrusa é sinal, em Combray, de felicidade,  ambiência diversa daquela onde se desenrola a vida,  e ela envolve e penetra a narrativa inteira, uma técnica que Proust entreviu na Vista de Delft, uma iluminação cujo equivalente estilístico e estrutural propriamente literário ele procurou intensamente.”
Quando Proust resolveu abandonar a vida mundana e amorosa,  sentiu que havia perdido um precioso tempo com futilidades e romances que nada lhe acrescentaram em sua vida emotiva e cultural,  e  que,  para tentar recuperar esse tempo,  era necessário abraçar sua vocação e escrever, finalmente, seu livro. Sentia que a “obra  de arte era o único meio de reencontrar o tempo perdido”. Apegou-se à nova visão de vida como um naufrago em mar revolto agarra-se a uma tábua e tenta chegar à margem segura e verdadeira:
“Compreendi que a matéria da obra literária era, afinal, a minha  vida passada; que tudo me viera nos divertimentos frívolos,  na indolência, na  ternura, na dor, eu acumulara como a semente os alimentos de que se nutrirá a planta, sem adivinhar-lhe o destino nem a sobrevivência.  Como a semente, eu poderia morrer quando a planta para qual eu vivera sem o saber, sem nunca imaginar  que minha vida devesse entrar em contato com os livros que sonhara escrever e cujo assunto, quando outrora me sentava à mesa de trabalho, buscava em vão.”


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Um trecho do episódio que retrata a morte de Bergotte no museu Jeu de Paume:       "Bergotte morreu nas seguintes circunstâncias. Por causa de  uma crise leve de uremia lhe haviam prescrito repouso. Lendo que um crítico havia encontrado  na Vista de Delft, de Ver Meer (emprestado pelo Museu de Haia para uma exposição holandesa), quadro que ele adorava e acreditava conhecer muito bem, uma pequena parte  de muro amarelo (da qual não se lembrava) tão bem pintada que, visto sozinha, era como uma preciosa obra de arte chinesa, de uma beleza completa em si  mesma, Bergotte comeu umas batatas, saiu de casa e entrou na exposição. Logo nos primeiros degraus que teve de subir foi tomado por tonturas. Passou diante de vários quadros e teve a impressão de secura e inutilidade de uma arte tão artificial, e que não valia as correntes de ar e o sol de um palácio de Veneza, ou de uma simples casa à beira-mar. Chegou enfim diante do Ver Meer que ele recordava mais luminoso, mais diferente de tudo o que conhecia, mas onde, graças ao artigo do crítico, notou pela primeira vez os diminutos personagens de azul, que a areia era rosa, e por fim a preciosa matéria da pequenina parte de muro amarelo. Suas tonteiras aumentaram; fixou o olhar, como uma criança na borboleta amarela que quer pegar, na preciosa parte de muro. “Assim é que eu deveria ter escrito", dizia ele. Meus últimos livros são secos demais, seria preciso passar várias camadas de cor, tornar minha frase preciosa em si mesma, como esse petit pan de mur jaune.” Enquanto olhava,  a gravidade das suas tonteiras não lhe escapava. Numa balança celestial  lhe aparecia, pesando num dos pratos, a sua própria vida, enquanto o outro continha a pequena parte de muro tão bem pintada de amarelo. Sentia que imprudentemente havia arriscado a primeira pela segunda. “Mas eu não gostaria, disse para si mesmo, de vir a  ser para os jornais da tarde a nota sensacional dessa exposição.” Ele se repetia: “Pequena parte de muro amarelo com um alpendre, pequena parte de muro amarelo.” Nisso deixou-se cair sobre um canapé circular; também bruscamente parou de pensar que a sua vida estava em jogo e, recobrando o otimismo,  disse consigo: “É uma simples indigestão que me deram umas batatas mal cozidas, não é nada.”  Uma nova crise o abateu, ele rolou do canapé para o chão, quando  todos os visitantes e guardas  acorreram. . Estava morto. Morto para sempre? Quem o  poderá dizer ? (...) Enterraram-no, mas em toda a noite fúnebre , nas vitrines  iluminadas, os seus livros, dispostos de três a três, velavam como anjos  de asas abertas e pareciam, para aquele que não vivia mais, o símbolo da sua ressurreição.”

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"Il mourut dans les circonstances suivantes : Une crise d'urémie assez légère était cause qu'on lui avait prescrit le repos. Mais un critique ayant écrit que dans la Vue de Delft de Ver Meer (prêté par le musée de La Haye pour une exposition hollandaise), tableau qu'il adorait et croyait connaître très bien, un petit pan de mur jaune (qu'il ne se rappelait pas) était si bien peint, qu'il était, si on le regardait seul, comme une précieuse œuvre d'art chinoise, d'une beauté qui se suffirait à elle-même, Bergotte mangea quelques pommes de terre, sortit et entra à l'exposition. Dès les premières marches qu'il eut à gravir, il fut pris d'étourdissements. Il passa devant plusieurs tableaux et eut l'impression de la sécheresse et de l'inutilité d'un art si factice, et qui ne valait pas les courants d'air et de soleil d'un palazzo de Venise, ou d'une simple maison au bord de la mer. Enfin il fut devant le Ver Meer, qu'il se rappelait plus éclatant, plus différent de tout ce qu'il connaissait, mais où, grâce à l'article du critique, il remarqua pour la première fois des petits personnages en bleu, que le sable était rose, et enfin la précieuse matière du tout petit pan de mur jaune. Ses étourdissements augmentaient ; il attachait son regard, comme un enfant à un papillon jaune qu'il veut saisir, au précieux petit pan de mur. « C'est ainsi que j'aurais dû écrire, disait-il. Mes derniers livres sont trop secs, il aurait fallu passer plusieurs couches de couleur, rendre ma phrase en elle-même précieuse, comme ce « petit pan de mur jaune. » Cependant la gravité de ses étourdissements ne lui échappait pas. Dans une céleste balance lui apparaissait, chargeant l'un des plateaux, sa propre vie, tandis que l'autre contenait le petit pan de mur si bien peint en jaune. Il sentait qu'il avait imprudemment donné le premier pour le second. « Je ne voudrais pourtant pas, se disait-il, être pour les journaux du soir le fait divers de cette exposition. »
Il se répétait : « Petit pan de mur jaune avec un auvent, petit pan de mur jaune. » Cependant il s'abattit sur un canapé circulaire ; aussi brusquement il cessa de penser que sa vie était en jeu et, revenant à l'optimisme, se dit : « C'est une simple indigestion que m'ont donnée ces pommes de terre pas assez cuites, ce n'est rien. » Un nouveau coup l'abattit, il roula du canapé par terre, où accoururent tous les visiteurs et gardiens. Il était mort. Mort à jamais ? Qui peut le dire ? (...)   On l'enterra, mais toute la nuit funèbre, aux vitrines éclairées, ses livres, disposés trois par trois, veillaient comme des anges aux ailes éployées et semblaient, pour celui qui n'était plus, le symbole de sa résurrection. »
Assim, estamos diante de duas  obras-primas da cultura universal, o romance A Prisioneira , de Marcel Proust e o quadro Vue de Delft, de Vermeer. Marcel Proust e Vermeer, dois gigantes.


                                                   Museu JEU De PAUME - webluxo.com.br


Voltemos a 1921, à exposição  de Vermeer no Museu Jeu de Paume. Um homem, elegantemente trajado, está diante do quadro Vue de Delft e o admira como se o tivesse visto pela primeira vez, embora o tenha visto, em Haia, em 1902.  19 anos se passaram. Alertado pelo amigo crítico, ele procura identificar o que sua visão não reteve durante esses anos.  Ao longe, seu olhar se fixa num determinado ponto, uma pequena parte do muro amarelo que lhe chama a atenção. Aquele pedaço de muro, uma pequena parte emoldurada pelos raios do sol o arrasta para os subterrâneos do seu inconsciente para tentar estancar a emoção e a felicidade que transbordam borbulhantes em seu interior,  ameaçando sufocá-lo. E é diante dessa sensação desconhecida que deve ter ocorrido a súbita transformação no impacto de um relâmpago,  quando passado e presente se fundiram  numa verdadeira explosão emocional na descoberta, pela memória,  de Combray, que surge  em pleno museu, com quase 50 anos de atraso. E ele se vê, finalmente,  já liberto da sufocação emocional, com sua lanterna mágica, diante da Vue de Delft,  admirando  as aparições multicoloridas  do  rosa do desejo para o  azul da veneração, quando então é sublimado no amarelo da arte o « petit pan de mur jaune », que estava dentro dele mesmo por todos esses anos e que,  graças ao artigo do crítico, ressurgia  naquele pontinho amarelo, simbolo da arte suprema e perfeita, ao mesclar o presente e o passado  numa sensação revivida que transformou Marcel Proust ( ou Bergotte) num ser ëxtratemporal, num tempo puro, alheio a tudo que não fosse aquele foco jaune,  como o episódio da madeleine, quando o narrador, enebriado pelo que acontecia, perguntava a si mesmo : « Será que vai chegar até a superfície de minha clara consciência, essa lembrança, o instante antigo que a atraçào de um instante idêntico veio de tão longe solicitar, comover, erguer do fundo de mim ?   (...) E como nesse jogo em que os japoneses se divertem  mergulhando numa bacia de porcelana cheia de água pequeninos pedaços de papel até então indistintos que, mal são mergulhados, se estiram , se contorcem,  se colorem,  se diferenciam,  tornando-se flores, casas, pessoas consistentes e reconhecíveis, assim agora  todas as flores do nosso jardim e as do parque  do Sr. Swann, e as ninféias do Vivonne,   e a boa gente da aldeia e suas pequenas residências,e a igreja,  e toda Combray e suas redondezas, tudo isso que toma forma e solidez, saiu, cidade e jardins, de minha xícara de chá. »
O « petit pan de mur jaune » é um importante signo  da arte  porque  a essência da obra de arte se incorporou na cor  amarela da Vue de Delft de Vermeer, espiritualizando-a e  tornando-a  imaterial, características dos signos artísticos.  Também pode-se dizer que a sensação que Proust sentiu diante do quadro fê-lo buscar,  no petit pan de mur jaune,  a Combray do seu passado pela reminiscência  e descoberta.


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Sobre o que Marcel Proust  viu em 1902, em Haia, diante da Vue de Delft apenas ficou documentada sua expressão extasiada de ter visto o quadro mais belo do mundo. Nenhuma referência de sua parte sobre o petit pan de mur jaune.  A sua memória involuntária não foi aguçada por nenhuma reminiscência. Nada lhe chegou. Só ficou mesmo o registro da beleza do quadro visto. E sobre onde fica este  ponto, este pano, este fragmento,esta parte do muro amarelo, que Prostou reviu em 1921,  não há unanimidade, não há um consenso absoluto. Em que local do quadro, dentre os que exibem tons de amarelo,  Proust se fixou e se deslumbrou ?  Só ele poderia responder diante da profunda emoção que o dominou. Só ele, o resto são especulações ou outras emoções vividas pelos decifradores de Proust. Quantas  pessoas não se emocionarão ainda diante da simbologia das cores de Vermeer ? Há inclusive várias teorias sobre os três  pontos  que emitem   a cor amarela do quadro, cujos autores tentam advinhar  o  interesse de Marcel Proust. Mas, para saber onde localizar o exato ponto de fixação de Marcel Proust  seria necessário adivinhar em que ponto, em que muro de Combray, ou se  apenas por uma cor vibrante « jaune » ele avistou um pan lumineux que o cobriu de emoção, permitindo que essa emoção esquecida por tantos anos, ressurgisse, evandindo-se do seu mais recondito  interior,  para engrandecer a descoberta da beleza  na verdadeira criação literária, com a consequente  homenagem  à arte, simbolizada na morte fulminante de Bergote diante do « petit pan de mur jaune »  da Vue de Delft.