sábado, 14 de junho de 2014

A Pérola - Conto

A Pérola
Elsa Caravana Guelman

                Marcelo acordou mais cedo do que esperava naquela manhã ensolarada de terça-feira. Assim que conseguisse tomar o café,  iria esticar o mais que pudesse o dia que se iniciava na praia  e no embalo das ondas. Começou a cantarolar baixinho, quando um forte barulho o fez, num  instante, saltar da cama. Tocavam a campainha do portão estridentemente, havia gritos e um alvoroço geral. Chegou à janela e viu lá embaixo algumas pessoas. Reconheceu, entre os outros, o maître do restaurante Pérola, Edgard, que, ao vê-lo, gesticulando nervosamente exclamou:
                - Patrão, estamos a sua espera no restaurante para decidir como será o dia, se os cardápios continuam os mesmos ou se vai haver alguma modificação. Foi tudo tão de repente!
                Marcelo não entendeu nada. Pediu que esperasse um pouco, enquanto se arrumava para descer, quando, então, conversariam. Conhecia Edgard há muito tempo e, na maioria dos dias,  o via no restaurante quando lá  almoçava. Por que teria vindo à sua casa tão cedo? O que quereria? Por que o chamava de patrão? Não tinha nenhuma ligação com a dona do restaurante, Giovana, uma italiana simpática e alegre, a quem endereçava somente um simples bom dia ou boa tarde, enquanto a maioria dos clientes tinha muito mais intimidade com ela, era alvo de muitos galanteios e gentilezas, mas não da parte dele. Talvez, até, por timidez.
                No portão encontrou Edgard, acompanhado dos garçons e de um homem de estatura baixa e óculos escuros que, mais tarde, ficou sabendo ser o contador do restaurante.
                - Vamos, patrão, não temos muito tempo. O melhor será, na minha opinião, manter o mesmo cardápio que vinha sendo utilizado pela dona Giovana. Com o tempo,  a gente vai fazendo  as modificações. Desculpe se estou me adiantando, isso agora vai competir ao senhor que é o novo proprietário do restaurante. Esperamos pelo senhor a noite toda e, como não apareceu para nos dar as novas, viemos logo cedo à sua casa.
                Marcelo  cambaleou, tomado de supresa e susto. Gaguejou:
                - Do que é que vocês estão falando? Estarei louco, por acaso?  Que história é essa de restaurante?
                - Doutor Marcelo, não brinca com a gente, já sabemos de tudo! Aqui está o contador, que já passou tudo para o seu nome,  está com o documento expedido pela Junta Comercial, uma comunicação aos fornecedores da sua nova gestão.
                - Não, isto é uma brincadeira de péssimo gosto. Onde está dona Giovana?
                - D. Giovana viajou para a Toscana, terra de seus pais,  logo após ter-se entendido com o senhor, foi o que nos disse que faria. Estava eufórica, pois fizera um excelente negócio. Tinha certeza da vitória do novo restaurante. Vamos lá, a documentação está à sua disposição. Se algo saiu errado, não temos nada com isso. Somos seus empregados, agora.  O senhor é o nosso patrão. E vou até confidenciar alguma coisa, entre os empregados  há quem ameace entrar na Justiça para garantir seus direitos, se a mudança não corresponder  às  expectativas.
                - Edgard, você me conhece há anos. Eu sou um cliente assíduo. Tenho até a minha mesa, no canto da sala. Não sou nenhum maluco, tenho os pés no chão. Não sou dono de restaurante nenhum, sou veterinário. A última coisa que eu faria na minha vida seria montar um restaurante, não entendo do negócio e nem me interesso por esse assunto. Escolho diariamente o que comer e beber e pronto. É claro que gosto de uma comida original, sofisticada, gostosa, mas isso não significa pendor para dirigir um restaurante. Nunca mantive sequer uma conversação com dona Giovana sobre o assunto. Ela sempre me viu como um cliente isolado, caladão, dentro do meu mundo, embora eu admirasse a sua capacidade e a versatilidade de seus pratos tão elogiados por todos. Isso não significa que eu tenha comprado seu restaurante. Todo dinheiro que tenho está investido no banco e é só eu telefonar para lá e ver que tudo continua na mesma situação.
                - Pois foi do dinheiro que o senhor  lhe pagou que ela comprou euros para viajar. Uma alta soma, à vista. Por que nos esconde isso,  o que receia, Doutor Marcelo?
                - Vou tirar logo essa dúvida sua. Telefonarei ao banco e falarei com meu gerente.
                - Sim, mas vamos também ao restaurante para o senhor ver a papelada toda.
                 Foram. O restaurante ficava perto, bastava caminhar poucas dezenas de metros. Marcelo tinha certeza de que poderia provar que tudo não passava de um grande engano.  Entraram por uma porta lateral e foram diretamente ao escritório, de onde imediatamente ligou para o banco, sem sequer querer examinar os documentos que Edgard  empunhou, mas empalideceu ao verificar que, no dia anterior, havia sido feita uma retirada alta em sua conta, após o valor ser baixado de seus investimentos. Era o exato valor da compra do restaurante, como logo pôde ver, ao arrancar os documentos da mão de Edgard.
                - Não sei o que dizer, estou desnorteado... Algo de muito estranho está acontecendo e não tenho, eu lhes juro, nenhuma explicação. Só de uma coisa eu tenho certeza, eu não comprei nenhum restaurante, isto é uma loucura. Repito, seria a última coisa que eu faria na vida.
                Marcelo verificou, então, toda a papelada que lhe foi apresentada, ouviu todas as explicações do contador, comprobatórias de que, realmente, ele comprara o restaurante. Era o novo dono e teria de encarar essa realidade, quisesse ou não. Ordenou, então, que fossem mantidos os cardápios anteriores correspondentes aos dias da semana. Quanto ao restaurante e seu funcionamento, nada mudaria. Não tinha cabeça para mexer em coisa alguma, naquele momento, nem saberia como operar mudanças de uma hora para outra. Tudo continuava a parecer-lhe absurdo, mas resolveu  ir até o salão de refeições.
                Era um salão amplo, já o conhecia bem, das vezes em que nele almoçara ou jantara, tinha mesas menores e outras maiores, bem dispostas e ordenadas, com toalhas brancas de linho que tinham desenhos ondulados azuis, buscando dar a impressão de ondas do mar.  Havia apenas um grande lustre no meio do teto, que iluminava bem as mesas centrais mas era também responsável pela atmosfera de penumbra nas mesas encostadas às paredes, nas quais havia pequenos apliques de luz e em que se viam paisagens marítimas, com  grutas onde ninfas repousavam sobre pedras. Outras pinturas faziam lembrar as vinte mil léguas submarinas de Júlio Verne, havia uma representação do capitão Nemo dirigindo o Nautilus em sua busca no fundo dos mares. No final do salão, dando para a saída lateral do restaurante, havia um grande aquário com uma infinidade de peixes e, no pátio interior, um tanque também com peixes. Atrás do balcão de recepção, um quadro exibia uma concha entreaberta e seu conteúdo  fantástico, uma pérola deslumbrante.  Daí, o nome do restaurante.
Como é que ele poderia ter-se tornado dono de tudo isso, de uma hora para outra? Nunca acontecera nada, ele tinha certeza. Sentia-se vítima de uma alucinação, não participara de coisa alguma, nunca fora sequer consultado. Por que ? Tantos e tantos clientes diários, pessoas significativas, que poderiam trazer idéias renovadoras, criando brilhantes situações para o crescimento do restaurante. E, no entanto, ele!
Buscou a mesa em que costumava sentar-se no canto do salão, estava posta; tentou acalmar-se, não sabia ainda como conseguiria viver aquela vida  que se transtornara subitamente. Não poderia ser real e, no entanto,  a documentação apresentada comprovava que ele era realmente o dono do Pérola. Por mais que remexesse no mais recôndito de  seus pensamentos, ele não conseguia achar uma pista, nada. Sentou-se como fazia sempre, quase que dia após dia, desde e inauguração do Pérola. Esperaria o almoço, comeria o  de sempre.
Quando a porta foi aberta, os clientes entraram e todos o cumprimentaram, como se já soubessem que ele era o novo dono. Sorriu para todos. Seu sorriso se iluminou ainda mais quando ela chegou.  Era Gabriela,  de olhos profundos, cabelos longos, esbelta, elegantemente vestida, um terno de jeans, uma blusa bege. Sentou-se e seus olhos encontraram os dele. Ela sorriu-lhe, discretamente.
Marcelo não conseguia deixar de olhar para ela. O garçom veio atendê-la e ela fez o pedido. Nunca se haviam falado, apenas sorriam sempre, um para o outro, quando se encontravam, ela também não costumava conversar com nenhum dos outros clientes.  Vinha almoçar, sempre à mesma hora, e, ao terminar, se levantava e saía.  Será que ela já sabe da novidade? – ele imaginou. Não lhe cabia dizer nada, foi o que pensou, esperaria que ela soubesse. Naquele dia, ela parecia estar com um pouco de pressa, porque desistiu da sobremesa, que demorava, e, levantando-se da mesa, antes de ir embora, inexplicavelmente olhou para Marcelo e o cumprimentou, sorrindo de novo, agora de forma ainda mais intensa, acenando para ele, como se lhe desse  parabéns.
Sentiu vontade de acompanhá-la, seria emocionante levá-la ao trabalho (tinha certeza de que trabalhava, mas onde, em quê?), contar as horas que por lá demorasse, esperá-la sair e, novamente, a conduzir até onde quisesse ir e ficar. No entanto, conteve-se, ficou preso no òesela deixava o recinto e ganhava a rua.
Foi a intensidade maior do sorriso dela, naquele dia, e esse aceno, que nunca dantes fizera, que o convenceu a aceitar essa nova e inexplicável vida que para ele se abria, como dono, agora, do Pérola. Daí em diante, passou a Interessar-se pelos problemas e pelas necessidades do restaurante, comprou livros de culinária, modificou receitas, acrescentou novos pratos ao menu. Em pouco tempo, tornou-se um expert   na matéria. Passou a andar de  mesa em mesa, ouvindo opiniões e sugestões dos clientes (nas horas em que Gabriela não estava), recebendo elogios e, em pouco tempo, tornou-se um outro homem, enquanto o sorriso de Gabriela, quando ela vinha, aumentava de intensidade a cada dia que se passava. Era um sorriso que o arrastava e o imobilizava, ao mesmo tempo. Precisava decidir, e rápido, o que fazer em relação a ela, mas a timidez excessiva o tolhia.
Numa noite, quando o último cliente saiu e os empregados, todos, deixaram seus postos, Marcelo resolveu ficar até mais tarde para, sozinho, curtir seu restaurante. Apagou as luzes do lustre central e deixou acesas somente as das paredes laterais, mais fracas, que iluminavam as pinturas. O salão, assim alumiado, criou como que vida nova, cresceram as figuras dos quadros como se parecessem querer sair das paredes em que estavam aprisionadas, libertar-se para descobrir os segredos e participar ativamente do ambiente.  De repente, uma nereida, saída de seu palácio no  fundo do mar, como que veio imobilizar-se sobre uma pedra que a água lambia, tendo ao fundo uma gruta marinha, como se aguardasse a chegada de seu tritão preferido, sacudindo a vasta cabeleira, para um e outro lado, até, finalmente,  atirar-se  às águas.

Foi nesse momento que Marcelo se deu conta de todas essas mudanças e transformações que atingiam sua pacata vida. Sentia dentro dele duas criaturas, dois Marcelos, dois eus, formando as duas faces do seu ego. Enquanto um, o Marcelo anterior ao restaurante, mantinha a serenidade, a placidez de sua personalidade de sempre, o outro, o Marcelo posterior à nova realidade do restaurante, personificava o novo aspecto, ativo, atuante. Ali estavam,  num mesmo corpo, o Eu e o Outro, o inerte e o criativo, como um Jano bifronte encarando o passado e, ao mesmo tempo, o futuro, mas ambos importantes,  significativos e coesos em sua existência, não podendo dissociar-se, existir separadamente. Nessa noite de transformações, dormiu veterinário e acordou dono de restaurante. O tempo, que atingiu um dos eus e modelou o outro,  como que parou por um instante, para que Marcelo tivesse, nessas horas precisas e preciosas, o verdadeiro retrato, agora, de sua vida.
Sentiu o perfume suave de Gabriela envolvendo-o e procurou-a pelo salão. Não a encontrou, nem na nereida e nem nas outras ninfas dos murais das paredes. Do perfume, imaginou o sorriso. Fechou os olhos profundamente e procurou reter esse seu sorriso, que se prolongou até que se sentiu um pouco tonto e abriu os olhos na esperança, agora concreta, de vê-la. Era o outro que a buscava, era o outro que decidira o que fazer no dia seguinte, quando a visse na hora do almoço. Ele iria firme e resolvido, sugado pelo seu sorriso e ela saberia, finalmente, que era a mulher de sua vida, a sempre esperada.
Um enorme relógio cuco, com seus bonecos dançarinos, soou e o fez retornar à realidade. Marcelo apagou as luzes que iluminavam as pinturas das paredes. Já era bem tarde, sentia-se agora, realmente, um tanto cansado, um tanto hipnotizado por aquelas  figuras e os efeitos da noite. Olhou o salão às escuras  e percebeu que a tranquilidade voltara ao recinto. Quando chegou em casa, ficou em dúvida se fechara a porta do restaurante. Não pensou mais, deitou-se e dormiu.
O sol entrou em cheio e se esparramou de repente por todo o quarto. Marcelo abriu os olhos e tentou afastar os raios que o cobriam, pois esquecera ou nem se lembrara de fechar a janela na noite passada, de tão esgotado chegara.  Num pulo, saiu da  cama, tomou um banho rápido. Chegaria na hora do almoço, já bastante atrasado, mas o que fazer? Estava em vias de tomar decisões importantes, resultantes das reflexões noturnas no salão do restaurante. Depois, ao que tudo indicava, a presença dele não estava sendo sequer exigida. E isto era um bom sinal, excelente mesmo, sinal de que tudo estava correndo às mil maravilhas,  que ele poderia ter dormido um pouco mais para compensar a noite feérica que vivera. Só uma coisa o preocupava, só uma coisa lhe tirava o sossego: chegar depois de Gabriela. Queria estar lá para recebê-la.
Quando chegou ao restaurante, pareceu-lhe achar, no entanto, algo estranho. As mesas estavam, em sua maioria, ocupadas. Edgard estava na porta e sorriu, à sua chegada, fazendo-lhe um sinal amistoso.
- Sua mesa já está pronta, Doutor Marcelo. O Boeuf Bourguignon está uma delícia!
- Aconteceu alguma coisa?
- Não, Doutor Marcelo, está tudo bem. Pode entrar, Dona Giovana já chegou.
 - Dona Giovana?!  Mas ela não vendeu o restaurante e viajou para a Toscana?
- Que é isso, Doutor Marcelo?!  Olhe, ela andou dizendo, sim, há muito tempo, que um dia pretendia vender o restaurante e voltar para a Toscana. Mas está firme e segura no comando, acho que nunca pensou nisso de verdade.  Ficamos fechados dois dias para reforma da cozinha.  O senhor nem veio aqui, eu até o vi na praia, tomando sol.
Marcelo estremeceu e, trêmulo, entrou no salão.  Tudo aquilo parecia uma nova brincadeira, não tinha a menor explicação. A situação se invertera. Dormira dono do restaurante e acordara veterinário. Reparou que sua  antiga mesa estava com a toalha branca de ondas azuis, tendo por cima uma flor, a de sempre também. Não dava para entender. Olhou para o balcão da recepção e lá estava, sorridente, Dona Giovana.  Na certa vivia um novo pesadelo, talvez não tivesse acordado, ainda. Eram os efeitos da noite, com certeza. Ouviu, então, a voz da dona do restaurante:
- Dr. Marcelo, apresento-lhe um novo cliente, Dr. Alan, ele é, como o senhor,  também veterinário, é seu colega.
O novo cliente levantou-se e veio cumprimentar Marcelo efusivamente, disse algumas palavras, que ele nem ouviu direito, retornando, após, à sua mesa.
Marcelo se sentia tão esmagado como no dia em que assumira (assumira?)  o restaurante.  Sentou-se e esperou que lhe servissem o almoço. Foi quando ela, Gabriela, entrou, vestindo um novo e elegante terninho, com um lenço esvoaçante no pescoço.  Sorriu debilmente para Marcelo, como sempre fazia. Foi, também, apresentada ao novo cliente, Dr. Alan, limitando-se a dizer “prazer”. Terminado o almoço, levantou-se e saiu apressada.

Marcelo ficou no seu canto de mesa, tão sozinho e tão deprimido, imerso em seus pensamentos, no que seriam as recordações da noite. Talvez tentasse, mais tarde, por vezes e vezes, entender, sempre infrutiferamente, o que acontecera, mas ele sentia que a tinha perdido, definitivamente, para as águas borbulhantes e profundas daquele mar imaginário pintado nas paredes.  Gabriela poderia continuar retornando ao restaurante, esboçar, todo dia, para ele, seu débil sorriso de Gioconda, mas ele a havia perdido, em definitivo, para aquelas águas noturnas que pareciam transbordar na parede, as águas daquele profundo e onírico mar em que conseguira (ele também?) mergulhar naquela estranha véspera. Ela era a pérola, deslumbrante e fantástica, que ele entrevira, retornando à sua eterna concha.

domingo, 20 de abril de 2014

O PEQUENO MUNDO DE MARCEL PROUST
De Elsa Caravana Guelman


         A literatura de Marcel  Proust é de uma riqueza inimaginável pelas significações  mágicas e simbólicas que se entrelaçam entre as palavras em sua narrativa que,  de  início,   se apresenta numa aparência de leveza na condução dos acontecimentos que vão surgindo no crescimento e na bifurcação de suas longas frases quando,   então, crescem emocionalmente e, numa transformação, nos conduzem a um verdadeiro labirinto.  E essas infiltrações são invisíveis numa primeira vista, não aparecem,  como se dormissem dentro das palavras, necessitando de uma ordem do leitor para o seu despertar ou, como sonâmbulas, necessitam de quem as despertem. São muitos também os signos que fogem das coisas onde estão como se escapassem de vasos fechados e se identificam em verdadeiros círculos, cruzando-se, inicialmente, com  mundanismo, amor, sensibilidade antes de  convergirem, finalmente,  todos esses signos,  para a vivência absoluta da arte.  Se persistirmos na descoberta desses signos descobriremos que   as frases desabrocham como flores em dia de sol nos jardins e as sentiremos revividas e incorporadas de novas sensações , quando despertarão para uma vida própria no enriquecimento do texto. As palavras de estáticas passam a ser dinâmicas, e, recriadas em seu novo reino, se ajustam em harmonia ao dar seguimento às novas visões do pensamento. Entendemos, então, que, num processo duplo, o leitor e as palavras do escritor se encontram e se completam verdadeiramente para uma viagem de encantamento nos domínios da escrita.É o que acontece quando se lê Marcel Proust. Abrimos o livro e começamos a ler em busca de um entendimento. As palavras parecem nos esperar para esta viagem. Mas na verdade querem é ser decifradas, pois muitas delas não estão no texto com o seu sentido lógico, do dicionário, não. Quando encontramos a primeira dificuldade e o entendimento é dúbio, vamos, então, tateando, mexendo, remexendo em tudo na tentativa de encontrar um sentido figurativo ou analógico para não perder o rumo e despencar nos seus longos parênteses, verdadeiros recheios de conhecimentos filosóficos e literários, um alerta ao leitor para se preparar a uma conclusão surpreendente, uma espécie de “avant goût”, uma pequena amostra da beleza e da grandiosidade que ele nos prepara  com a certeza de que não  pararíamos, que iríamos até ao fim. Finalmente nos envolvemos com o uso constante de metáforas que, ampliando e avivando os trechos  das reminiscências e descobertas com infinitas feições, enriquecem e eternizam sua literatura.
       Sobre a literatura proustiana, André Gide, que se  recusou a publicar Du côté de chez Swann pela Gallimard, assim se expressou: “Que livros curiosos! Penetramos neles como em uma floresta encantada; desde as primeiras páginas nos perdemos, e ficamos felizes de nos perder; logo não sabemos mais por onde  entramos nem a que distância nos encontramos da margem; em alguns momentos, parece que caminhamos sem avançar, e, em outros, que avançamos sem caminhar, vamos olhando tudo de passagem; não sabemos mais onde estamos, para onde vamos.” André Gide, Incidences, Paris, Gallimard, 1948.

        Marcel Proust é uma fonte inesgotável, que se estrutura e se recria a todo instante, proporcionando-nos prazeres renovados da amplidão transbordante de suas rememorações, porque nada para ele se apresentava concluído,  tendo de  evoluir, crescer e se modificar no jogo sutil das emoções que sua memória prodigiosa arrancava dos abismos da mente. Ler Marcel é contar sempre  com surpresas e descobertas, surpresas que podem até modificar o sentido original que se deu à leitura e descobertas pela duplicidade de ideia que cada palavra pode sugerir em sua movimentação. Acho que até o próprio Proust se perdia nessa tentativa de aprimoramento de seu estilo, sempre impulsionado pelo que lhe ditava o subconsciente, o seu interior mais profundo e contando com  sua sensibilidade, em que tudo está aprisionado como  em caixas a espera de um olhar ou de um empurrão para ganhar existência no mundo real.
       A preocupação de Proust com seus romances foi imensa, ocupando-lhe todo o tempo de que dispunha, quando se isolou em  seu apartamento e passou a viver inteiramente para a arte,  em companhia da amiga Celeste Albaret. Ela, inclusive, o ajudava pregar pedaços de papel escritos nos seus cadernos e nas revisões, verdadeira compulsão. Deixou 75 cadernos com observações, modificações de sua obra, escritas nervosamente pela noite afora. Corria contra o tempo, pois temia que a morte o tragasse antes de terminar seu trabalho definitivo. Esses  cadernos  manuscritos, que estavam em poder da família,  foram adquiridos pela Biblioteca Nacional da França e lá se encontram à disposição dos estudiosos e decifradores de Marcel, havendo um grupo de pesquisadores franceses, japoneses e brasileiros trabalhando para a organização de uma edição que conterá a transcrição integral das páginas, com notas e comentários dos textos, reproduções em fac-símile que dará ao leitor a possibilidade de cotejar a transcrição com o manuscrito proustiano.
        Faremos, então, uma viagem literária ao universo de Marcel Proust. Escolhemos seu  romance, “Du cote de chez Swann”, na parte referente a Combray, por ressaltar as lembranças de uma época em que seus sonhos e anseios eram mais fecundos que suas dúvidas.          
        “Desse modo, por bastante tempo, quando acordava de noite e me vinha a recordação de Combray, nunca consegui rever mais que aquela espécie de traço ou lanço luminoso (pan lumineux), que era recortado no meio de trevas indiferenciadas, semelhante aos que o acender de um fogo de artifício ou certa projeção elétrica iluminam e seccionam em um prédio cujas outras partes permanecem escuras e  mergulhadas dentro da noite: na base, muito larga, o pequeno salão, a sala de jantar, o trilho da alameda escura por onde  surgiria o Sr. Swann, inconsciente  autor das minhas tristezas, o vestíbulo  por onde me levaria para o primeiro degrau da escada, tão difícil de subir, que, por si só, constituía  o tronco bastante estreito daquela pirâmide irregular; e, o meu quarto,  no alto,  com o pequeno corredor de porta envidraçada por onde  mamãe entrava; em resumo, sempre visto à mesma hora, isolado de tudo  o que pudesse ter em torno, aparecendo sozinho na escuridão, o cenário  estritamente necessário ( como os que são vistos indicados em cima das velhas peças para as representações na província), ao drama do meu deitar: como se Combray se resumisse apenas em dois andares ligados por uma estreita escada, e como se nunca  fosse  mais  que sete horas da noite. Na verdade, poderia responder, a quem me perguntasse, que Combray ainda  compreendia outras coisas mais e existia em outras horas. Todavia como o que então recordasse me seria fornecido unicamente pela memória voluntária, a memória da Inteligência, e como as  informações que ela nos dá sobre o passado não conservam nada deste, nunca me teria ocorrido de pensar no restante de Combray. Na verdade, tudo isso estava morto para mim. Morto para sempre? Era possível ?
       Há muito de acaso em tudo isso, e um segundo acaso, que é o de nossa morte, não nos permite muitas vezes aguardar por muito tempo os favorecimentos do primeiro.
       Acho que é razoável a crença céltica de que as almas daqueles a quem perdemos, se acham cativas em algum ser inferior, num animal, um vegetal, uma coisa inanimada, efetivamente perdida para nós até o dia, que para muitos nunca chega, em que nos permite passar por perto da arvore, entrar na posse do objeto que lhe serve de prisão.  Então elas palpitam, chamando-nos, e, logo que as reconhecemos, está desfeito o encanto. Libertadas por nós, venceram a morte e voltam a viver conosco.
       Assim é com o nosso passado. Trabalho perdido tentar evocá-lo, todos os esforços da nossa inteligência  mostram-se inúteis. Está ele oculto, longe do seu domínio e do seu alcance, em algum objeto material ( na sensação que nos daria tal objeto material) que nós nem suspeitamos.  Esse objeto, só  do acaso depende que seja localizado antes de morrer, ou que não o localizemos nunca.”
       Nessa recordação de Combray, Marcel Proust, ou o narrador, se esqueceu de um lugar que lhe era muito caro: uma pequena peça que cheirava a íris (uma planta perfumada e suspensa por galhos) e onde também tinha um cassis silvestre e perfumado, na parte de cima da casa  e perto do local onde sua avó sempre dava seus passeios pelo jardim. Mas o próprio narrador adverte: “Na verdade, poderia responder a quem me perguntasse que Combray comprendia outras coisas mais e existia em outras horas.” Na ocasião, suas recordações a respeito de Combray eram trazidas unicamente pela memória voluntária, a memória da inteligência, cuja informação sobre o passado  não conservava nada dele, e nem lhe teria feito lembrar-se do restante de Combray, ainda que nesse restante estivesse um  cantinho  com tantas recordações de seu                        passado. Essa recordação da memória voluntária de Combray difere da outra recordação de Combray em razão da madeleine que é evocada pela memória involuntária,  quando Combray aparece em um passado puro, nada tendo com o  presente atual e o  passado que foi presente, por ser uma essência “do tempo em estado puro”. Voltando ao esquecimento de Marcel.   O que representava  esse cantinho ? O que representou, verdadeiramente, em sua infância e adolescência.?
       “Quando tinha 12 anos eu me isolei pela primeira vez no quartinho  que ficava no alto de nossa casa em Combray onde existiam colares de grãos de íris suspensos, procurando nessa fuga um prazer desconhecido, original, que não poderia ser substituído por outro. Era uma peça grande, que podia ser fechada à chave, mas a janela estava sempre aberta dando passagem a uma flor lilás que vinha do muro exterior e conseguira passar pela fresta sua extremidade perfumada. Tão alto (dans les combles du château), no sótão,  eu me sentia absolutamente só, mas esta aparência de estar em pleno ar, somava  uma  sensação deliciosa ao sentimento de segurança que sólidas fechaduras davam a minha solidão.A exploração que eu fiz então em mim mesmo em busca de um prazer que eu não conhecia, não me teria dado mais emoção, mais pavor, se eu tivesse agido por mim ao praticar uma intervenção cirúrgica em minha medula e meu cérebro. A todo momento eu acreditava que ia morrer. Mas que me importava, meu pensamento exaltado pelo prazer sentia que ele era mais vasto, mais possante que  este universo que eu percebia ao longe pela janela na imensidão e na eternidade da qual eu pensava habitualmente com tristeza  não ser  senão uma efêmera  parcela. Nesse momento também ainda longe das nuvens cobrirem a floresta, eu sentia que meu espírito ia um pouco mais longe que a extremidade das coisas, não estava  tomado por elas, deixava  uma pequena margem ainda. Eu sentia  meu olhar potente nas minhas pupilas trazer como simples reflexos sem realidade as belas colinas curvas  que se elevavam como seios dos dois lados do rio. Tudo isso  repousava sobre mim,  eu era mais que tudo isso, eu não podia morrer.” (...) Nesse momento  eu senti uma ternura que me envolvia, era o odor do lilás que em minha exaltação eu tinha deixado de perceber. Mas um odor acre, um odor de seiva ali se misturava  como se eu tivesse quebrado o galho; eu tinha somente deixado sobre a folha um traço prateado e natural como faz o fio da virgem ou o caracol. Mas sobre este  galho ele me aparecia como o fruto proibido sobre a árvore do mal.  E como os povos que dão às suas divindades formas inorganizadas, foi sob a aparência desse fio de prata que se podia esticar quase indefinidamente sem o terminar e que eu vinha de tirar de mim - mesmo, indo tudo ao avesso de minha vida natural, que eu reapresentava (imaginava) para mim desde então  e para algum tempo o diabo.”( Du cote de chez Swann – Esquisse III, pag. 646/647, volume I, Bibliothèque de la Pléiade).  
       Este texto,  que constou da obra Contre Saint-Beuve, como Sommeils,   e não do livro Du Coté de chez  Swann,  é revelador da  importância do seu pequeno mundo de Combray. Consta de suas anotações.  Além desse,  Marcel deixou muitos outros trechos em cadernos com diversas citações e muitas correções que ele fazia e refazia até encontrar a fórmula perfeita. Os seus editores é que sofriam com as constantes revisões ao modificar, acrescentar ou suprimir os trechos literários antes da publicação.
       Daremos ênfase, portanto, ao que constou de seu livro “Du cote de chez Swann” a respeito do “cabinet”, em suas férias em Illiers, e o que realmente foi publicado.
       Em alguns dias, para fugir das discussões de seus avós sobre bebida, motivada por sua tia-avó, que dava ao seu avô algumas gotas para beber e, ao mesmo tempo, gritava para sua avó o que ele bebia, causando-lhe sofrimentos, o narrador ia soluçar lá no alto da casa, “ao lado da sala de estudos, sob os telhados, numa pequena peça que cheirava a íris (dans une  petite pièce sentant l’iris), também perfumada por um cassis selvagem que crescera fora entre as pedras da muralha e passava ramo florido pela janela entreaberta. Destinada a um uso mais especial e mais vulgar, aquela peça, de onde se tinha vista, de dia, até o torreão de Roussainville-de-Pin, me serviu muito tempo de refúgio, sem dúvida por ser a única que me era permitido fechar a chave para todas as minhas ocupações que demandavam uma inviolável solidão: a leitura, o devaneio, as lágrimas e a volúpia.” Nesse diminuto ambiente em que  se refugiava,  como a  desafiar o universo, às portas fechadas,  na criação do seu pequeno mundo imaginário, levado pela vibrante  imaginação que já   se deixava impulsionar pela sensação, o que no futuro seria o Dejá vu de suas rememorações, Marcel viu brotar as primeiras experiências de sua vida. Na certa, leu, avidamente, François Le Champi, um prazer divino, leitura de férias, interrompida, às vezes, por um obstáculo vulgar como quando um amigo vinha visitá-lo ou um sol impertinente lhe forçava levantar os olhos da página ou a mudar de lugar.  É possível que tenha lido, também, “Vingt Mille lieues sous les mers”, de Jules Verne, pois para demonstrar  a curiosidade de Aimé, o maître do hotel de Balbec, Proust afirma ter ele o ar, ao mesmo tempo,  atento e agitado de uma criança que leu um romance de Jules Verne. O que levou Michel Butor a concluir que Marcel Proust tenha sido essa criança que leu o romance de Jules Verne. Em sua obra, Marcel Proust dá mais outra pista ao escrever sobre o assunto: “A idéia que se poderia voluntariamente renunciar a cem jantares ou almoços na cidade, ao duplo de chás, ao triplo de acontecimentos  noturnos, às mais brilhantes segundas-feiras da Ópera e terças-feiras do Francês para visitar os Fjords da Noruega não pareceu  aos Courvoisier mais explicável que “Vingt Mille lieues sous lês mers””. Seria ou teria achado o romance tão extraordinário, assim ?
       Em sua enumeração da pequena peça, após a leitura,  vem os devaneios a que se permitia  e que davam certo sabor aos seus dias de férias em Combray, nas alegrias da solidão e do silêncio que ele procurava esconder, quando seu olhar alcançava pela janela Roussainville, em cujos muros jamais penetrou, embora fosse uma aldeia que havia tanto tempo desejava conhecer, sentir as árvores do seu bosque, admirar as torres de sua igreja antecipando os passeios do lado de Méséglise, de Tansonville e de Mountjouvain.
       Pela janela de seu pequeno gabinete, sempre aberta, Marcel contemplava a natureza esculpida por folhagens que, ao lado das que cresciam normalmente, formavam um conjunto que parecia, na verdade, uma obra de arte.  E, então, surgia diante dele,  ao longe, uma vista de Roussainville, como um “petit pan de couleur”,  deixando-o imerso em seus devaneios: “...terra prometida ou maldita, Roussainville, em cujos muros jamais penetrei, Roussainville que, quando a chuva já se acabara  para nós, continuava a receber castigo como uma aldeia da Bíblia por todos os transbordamentos da tempestade que flagelavam obliquamente as casas  de seus moradores...” Diante de um horizonte desértico à sua frente, Marcel continuava seu devaneio: “ Mas era em vão, debalde, que eu implorava  o torreão de Roussainville, que lhe suplicava me mandasse alguma menina da sua aldeia, como  ao único confidente que eu podia conseguir dos meus primeiros desejos, quando, nos altos de nossa casa em Combray, no pequeno gabinete cheirando a íris, só avistava a sua torre no quadrado da janela, enquanto, com as heróicas hesitações do viajante que se embrenha numa exploração ou do desesperado que se suicida, eu fazia surgir desfalecente em mim mesmo um caminho  desconhecido e que julgava mortal  até o momento em que sentia o rastro natural de um caracol que vinha  juntar-se às folhas da groselheira silvestre inclinadas até a mim. Em vão eu lhe suplicava agora. Totalmente em vão, compreendendo  toda aquela extensão no meu campo visual, drenando-a com os meus olhares que gostariam de trazer dali uma mulher.” (...) “o horizonte continuava deserto, enquanto a noite caía sem dar esperança  ao meu desejo, naquele solo estéril de terra esgotada;  e não era mais de alegria, era de raiva que eu batia às árvores do bosque de  Roussainville, de onde não saía nem um ente vivo, como se as árvores fossem  uma pintura, não árvores verdadeiras,  sobre a tela de um panorama.”
       Era  nesse pequeno ambiente que Marcel dava vazão às suas lágrimas quando  dissabores o acometiam. Mais tarde ficou sabendo que sua avó vivia se martirizando por causa da sua falta de vontade, sua saúde precária que projetavam muita incerteza sobre seu futuro. (Nessa época o único consolo de Marcel era esperar toda noite que sua mãe fosse beijá-lo, quando já estivesse na cama, preparando-se para dormir. Apesar de durar tão pouco, pois sua mãe descia rapidamente após o beijo noturno, ele a aguardava. Era uma verdadeira tortura diária e quanto mais cedo ela vinha, mas depressa ia embora. Desejava, então,  que ela viesse o mais tarde possível, para que se prolongasse o tempo de espera em que ela ainda não subira. Nas noites em que havia um convidado para jantar, Sr. Swann, a situação se complicava, pois sua mãe podia nem subir para lhe dar boa-noite, o que o deixava desesperado e infeliz.)
       A última finalidade do seu esconderijo, seu pequeno mundo,  era poder, seguramente, entregar-se à volúpia, no descobrimento de seus desejos íntimos e secretos ao  despertar  sua sexualidade. Este pequeno mundo de leituras, devaneios, lágrimas e volúpias, inicialmente, lhe abriu as portas para a criação de sua Recherche, incutindo-lhe prazerosamente os fundamentos necessários a fim de incrementar e solidificar os alicerces fecundos de uma obra de arte extraordinária, reflexo de uma vida verdadeiramente vivida no mergulho insondável do interior do ser na busca das verdades eternas através da memória afetiva ou involuntária.
       Para Giles Deleuze, a Recherche não foi construída como uma catedral, nem como um vestido – metáforas utilizadas pelo escritor --  mas como uma teia. O narrador da Recherche é uma aranha. Acontece que a  aranha nada vê, nada percebe, de nada se lembra e somente em uma das extremidades de sua teia “ela registra a mais leve vibração que se propaga até seu corpo em  ondas de grande intensidade e que a faz, de um salto, atingir o lugar exato. Sem olhos, sem nariz, sem boca, a aranha responde  unicamente aos signos e é atingida pelo menor signo que atravessa seu corpo como uma onda e a faz pular sobre a presa.” (...) “O narrador-aranha, cuja teia é a Recherche que se faz, que se tece com cada fio movimentado por este ou aquele signo:  a teia e a aranha, a teia e o corpo são uma mesma máquina. O narrador pode ser dotado de uma extrema sensibiliddade, de uma prodigiosa memória: ele não possui órgãos no sentido em que é privado  de todo uso voluntário e organizado de suas faculdades. Em contrapartida, uma faculdade se exerce nele quando é coagida e forçada a fazê-lo; e o órgão correspondente vem situar-se nele, mas como  um esboço “intensivo” despertado pelas ondas  que lhe provocam  o uso involuntário. Sensibilidade involuntária, memória involuntária, pensamento involuntário são como que reações globais intensas do corpo sem órgãos a signos  de diversas naturezas. Esse corpo-teia-de-aranha se agita para entreabrir ou fechar cada uma das pequenas caixas que vêm deparar-se  com um fio viscoso da Recherche. Esse corpo-aranha  do narrador, o espião, o policial, o ciumento, o intérprete e o reivindicador – o louco – o esquizofrênico universal  vai estender um fio até Charlus, o paranóico, um outro até Albertina, a erotômana, para fazê-los marionetes de seu próprio delírio, potências intensivas de seu corpo sem órgãos, perfis de sua própria loucura.”
       Pode-se, finalmente,  aquilatar o que este pequeno quarto, cabinet, pequena peça, representou para Marcel Proust; foi verdadeiramente seu pequeno mundo com as riquezas das suas descobertas, seus tesouros mentais,  verdadeiros símbolos que povoavam febrilmente sua imaginação.
       Ao dizer “ Et que je venais de tirer de moi-même”, ‘le fil de la vierge”( que significa o fio que a aranha, na dispersão outonal, vai deixando sobre as árvores dos campos e sobre as flores dos jardins, tecendo muitas vezes um grande emaranhado para aprisionar insetos),  “le fil d’argent sans  le faire finir” ele nos faz lembrar o mito d’Arachnée, das Metamorfoses de Ovídio, em que Arachné e todos os descendentes terão de tirar de si mesmo o fio para tecer suas teias. Isto é, todo escritor, poeta terá de tirar de si mesmo o fio da sua criação. ( Novamente a aranha, na primeira, com Deleuze, é a semelhança de agir como uma aranha,  enquanto a do mito refere-se a uma metamorfose, o escritor tem de tirar tudo o que imaginar de si mesmo como a aranha, ou nunca será um  verdadeiro escritor.)

Le fil de la vierge que Marcel tire de lui-même après avoir vécu une métamorphose comme celles que l’on trouve représentées sur la toile d’Arachné, c’est le fil dont Arachné tisse sa toile, c’est l’encre métaphorique qui va laisser sur les feuilles les traces formant le texte parfait dans lequel même l’arbitre le plus partial ne va trouver aucune faute. Le fil que Marcel vient de trouver « en allant tout au rebours de [s]a vie naturelle », c’est-à-dire du présent au passé vers lequel le mène sa quête, ce fil se laisse tendre « presque indéfiniment », il devient aussi long que le long roman que Marcel va écrire. Marcel ne sait pas encore à quel jeu dangereux il se laisse entraîner, mais il sent déjà que son œuvre insolente sera punie par un jugement divin. Voilà pourquoi son fil lui semble « le fruit défendu sur l’arbre du mal » ou même l’ultime provocation de Dieu – « le diable ». Edi Zollinger

Université de Munich
eEEntendemos que  a expressão “Le fil de la vierge” em Marcel Proust ganhou um sentido metafórico, simbólico, servindo-se da Metamorfose de Ovídio, pela qual  a tecelã Arachné, por desafiar a deusa Palas, é transformada numa aranha, sendo obrigada a tirar tudo de si mesma. O que o menino vê na folha do lilás – imagens de emoção –o traço prateado e longo,  sem fim visível, o que  representará? Mais tarde, a lembrança desse fio entrará na própria  composição da Recherche, numa sistemática de contagem regressiva, do presente ao passado e do passado ao presente em busca de um caminho intransponível.  Por que Marcel se assusta com a descoberta do traço, considerado fio revelador de fruto proibido sobre a árvore do mal que o fez conhecer o prazer, contemplando, pela janela aberta,  as duas colinas distantes que se assemelhavam a dois seios (seins-collines)?  E este prazer era  desconhecido, original, não sendo substituído por nenhum outro, somente permitido no “cabinet sentant l’iris”. A  figura do diabo aparecia, então,  para ele sob a forma  desse fio de prata que pendia do ramo da árvore, aliado a um sentimento profundo de culpabilidade, que ele não conseguia vencer,  causando-lhe uma prostração e uma angustia que o perseguia como o fantasma da morte.
        Também ele ousa desafiar o todo poderoso Saint-Beuve, pois toda sua obra é um verdadeiro desafio aos conceitos e ordenamentos pré-estabelecidos da visão literária, sustentáculos da crítica literária de Saint-Beuve, uma verdadeira deusa Pallas.



        Captamos no fim do mito a revelação de que ’Arachné está condenada a  tirar de seu próprio ventre o fio  com o qual tece suas telas voluptuosas, com sua cabeça, braços e pernas atrofiados, ínfimos.  Em seu pequeno mundo,  o escritor Marcel Proust,  como a aranha do mito , impregnado de anseios juvenis,  deu início a sua vida literária, que, mais tarde, seria enriquecida pela À la Recherche Du Temps Perdu, quando tirando tudo dentro de si mesmo, do seu inconsciente,num mergulho profundo nas imensidões do pensamento e impulsionado pela memória, legaria à humanidade uma das mais extraordinárias obras literárias.


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quinta-feira, 17 de abril de 2014

O REFLEXO DO MEDO



                                                                 Elsa Caravana Guelman

Depois de um longo passeio pela cidade, visitando um antiquário, quando apreciei um belo quadro de Cézanne, invadindo a orla oceânica, onde me debrucei na amurada da praia para seguir o retorno das ondas do mar que se despejavam na areia, uma visita a uma loja de flores naturais, um descanso merecido num pequeno café em que passei algumas horas, bebendo e beliscando alguns petiscos, cortando ruelas bem estreitas onde crianças brincavam e quase impediam a minha passagem, resolvi que era hora de voltar ao apartamento de meus primos, Raquel e Lucas, certa de que já teriam retornado do escritório de arquitetura, onde passavam a maior parte do seu tempo, envolvidos com projetos que lhes aguçavam a criatividade.
Era meu último dia de uma semana inesquecível, em que aproveitei verdadeiramente todo o meu tempo com passeios, visitas e grandes descobertas que me fizeram refletir sobre a beleza oculta das coisas que vamos, de pouquinho em pouquinho, encontrando. E isso se torna mais importante quando estamos preparados emocionalmente, impregnados por um misto de sensação e surpresa para receber e perceber esse  sentido das coisas com as quais nos deparamos, de repente. É como se buscássemos no interior delas o cerne, a essência do que é e vem a ser,  no impacto da visão.
A visita aos primos não foi de surpresa, de uma hora para outra, não, foi muito bem planejada. Achei que estava na hora de lhes fazer uma visita já que recebera, tantas vezes, seu convite. Quando surgiram minhas férias, reservei uma semana para eles, que me receberam, pude verificar, com a maior alegria, cumulando-me com  atenções infinitas. Também procurei, de minha parte,  demonstrar-lhes toda minha satisfação em vê-los.
Logo que cheguei no edifício, o elevador parecia esperar-me e me conduziu ao sexto  andar. Carregava algumas lembranças que conseguira comprar no antiquário, que,  bem embaladas para viagem, não me dariam trabalho, pois bastaria colocá-las na mala e pronto. Ia tirar da bolsa a chave que deixaram comigo, quando percebi que a porta estava meio aberta. E foi aí que me lembrei do comentário de Raquel sobre não haver nenhum perigo em deixar a porta aberta. Já faziam isso há anos. Era um fato natural. A portaria do edifício funcionava vinte e quatro horas, sempre com um porteiro à disposição dos moradores. Ninguém entrava sem identificação. Na certa me esperavam apesar de ter em meu poder uma cópia da chave do apartamento. Entrei pensando encontrá-los na sala. Chamei-os e não responderam e, então, me  adiantei e fui acendendo, uma por uma, as luzes do corredor, da saleta e da sala. Não havia ninguém em casa, um silêncio total. Liguei a televisão e me sentei no sofá. Passado algum tempo, fui ao meu quarto levar as compras e já iniciar a feitura da mala para, no dia seguinte, bem cedo viajar.
Não sei o tempo que levei  na arrumação da mala, ajeitando os presentes, misturando-os com  as roupas para melhor protegê-los, que nem estranhei que meus primos não tivessem chegado ainda. Até bem pouco, ouvia o ruído da televisão, mas, aos poucos, o som desapareceu. Resolvi, então, verificar o que acontecera e notei que o corredor, a saleta e a sala de entrada estavam às escuras e a televisão completamente desligada. Quem os teria desligado? E por que estavam desligados?  Não consegui ver nada. Chamei por Raquel e Lucas e não obtive resposta. Assustada, corri imediatamente para o meu quarto e tranquei a porta. Tive, então, a idéia de telefonar para a portaria e pedir socorro, mas me lembrei que deixara o celular junto à televisão. Nada feito. Não adiantava gritar. Eu estava certa de que, na sala, havia alguém que, não só desligara a televisão, como as três luzes. Não fora uma pane de energia, pois havia luz no meu quarto e no meu banheiro. Apesar de não ouvir nenhum barulho, eu imaginava uma pessoa escondida na sala e isso me dava a noção de um grande perigo, pois não tinha como me comunicar com ninguém. Onde estariam os primos?  À medida que o tempo passava, mais eu me apavorava diante daquela situação. O que fazer? Resolvi, já que estava muito assustada, trancar-me no banheiro. Foi o que fiz, sem pensar mais. Para proteger-me, apaguei a luz e me encostei na parede porque não tinha onde sentar. E  fui ficando, sem posição nenhuma, em pé, encostada na parede até bem tarde da noite, quando o sono, fortemente, me derrubou e sentei-me no chão,  e, ainda encostada na parede, tentava não adormecer. Foi a pior noite da minha vida, o maior incômodo que passei naquele desconforto gélido do banheiro. Durante a noite, visões sinistras me apareciam na escuridão, dançavam ao meu redor .
Minha imaginação, dominada pelo medo, fazia-me ver coisas diversas, sem formas definidas, desestruturadas. E eu  imaginava que, na janelinha alta do banheiro, que dava para o pátio do edifício,  surgiriam mãos gigantescas querendo  me pegar para o festim da sala. O teto, na escuridão, parecia estufar-se, engrandecer, e logo depois minguava, enquanto uma fresta de luz do andar de cima, como um verdadeiro disfarce de uma figura longa e fina,  languidamente,  descia pela janelinha e se perdia no banheiro,  desfazendo o misterioso disfarce, compondo-se com a escuridão.  De repente, algo bateu em mim. Sufoquei um grito. É que, sem querer, esbarrei na cesta de vime de roupa, acho eu.  Quem sabe, eu pensava, meus primos estão mortos lá na sala, ou estão amordaçados e sofrem nas mãos de malfeitores, pois já havia passado tanto tempo, já era noite alta e eles não apareciam, nem vinham me procurar, o que era um péssimo sinal, uma grande indiferença. Não podia admitir que estivessem no apartamento e pudessem agir livremente.
Ouvi passos, poucos passos mais ou menos distantes. Se fossem meus primos, bateriam na porta à minha procura, tentariam me achar de qualquer jeito.  Não me deixariam nesse terrível isolamento. Que vai ser de mim? No momento em que  entrei,  não fechei a porta, imaginando que estavam por vir, quando não os encontrei na sala, ao chegar. Eram tão moços, não mereciam desaparecer desse jeito, trucidados por alguém que conseguiu vencer toda a segurança do prédio e enganar o porteiro. Seria um inimigo, um conhecido ou simplesmente um ladrão qualquer?
Raquel casou-se muito cedo e toda a família comentava que eram muito felizes. Vi-me ao lado da minha prima criança. Tínhamos saído bem cedo de casa para não pegar sol. A lembrança daquela frescura matinal aumentou a minha angústia e eu nem podia respirar para não produzir nenhum ruído que viesse a chamar a atenção. De onde eu me encontrava não dava para saber se estavam ouvindo televisão.
Um dia, para caçoar de mim, Raquel subiu muito alto na árvore e não sabia descer. Precisaram encontrar  alguém que subisse para trazê-la ao chão. Como demorasse o socorro, ela começou a chorar. Foi também sua primeira e ultima tentativa de subir em árvores. Nunca mais repetiu a façanha. As árvores, ela dizia, exerciam um fascínio sobre ela, por isso queria  ir no mais alto, no seu cume, para ser, também, uma árvore.
Com esses pensamentos fervilhantes em minha mente,  eu tentava impedir que o sono caísse sobre mim, impedindo que eu pudesse me defender se algo acontecesse. Procurava esticar, aumentar a noite, como  quem empurra um obstáculo. Mas, sem que eu me desse conta, lentamente,  a noite se tornou robusta, forte e imperiosa, e me abraçou como um polvo, com seus tentáculos, e eu adormeci.
Quando acordei, toda esmagada, com a roupa amassada e retorcida, um verdadeiro trapo, ouvi vozes. Levantei-me rapidamente e, ainda temerosa, abri a porta do banheiro e, já no meu quarto, tornei a ouvir vozes mais fortes. Fiquei tranquila, pois eram vozes conhecidas, eram as vozes de meus primos, Raquel e Lucas. E, num ímpeto intencional, como uma rajada, abri a porta do meu quarto e me deparei com eles, sorridentes e tranquilos, que me interpelaram carinhosamente:
- Como você dormiu, hein? Chegamos um pouco tarde e, como vimos sua porta fechada, imaginamos que estivesse dormindo. Não a incomodamos.
- Não aconteceu nada aqui? A porta aberta...
- Ah, sim, aconteceu um pequeno problema com o disjuntor da caixa de luz que controla a luz da sala, do corredor e da saleta da televisão. Quando nós chegamos estava tudo às escuras. Notamos que havia luz no seu quarto. Providenciamos logo o reparo. Com a peça nova, agora está funcionando muito bem. Mas isso, espero, não lhe causou problema, não? Você já devia estar dormindo quando ocorreu o apagão.
Eu não sabia o que dizer, ainda assustada com os acontecimentos da noite, quando até cheguei a imaginá-los mortos ou prisioneiros de ladrões. A minha palidez pelo desconforto e a noite mal dormida chamou-lhes a atenção.
- Que aconteceu com você, está tão pálida. Não dormiu bem, na certa. Venha tomar um bom café. Que pena que você vai nos deixar hoje, como eu lamento, prima, sua partida.
Realmente, um bom café me faria muito bem, era disso que eu estava precisando para tentar refazer as minhas forças, sentindo ainda   meu corpo dolorido. E foi o que fiz, tomei um café e tanto, com biscoitos amanteigados. Que  manhã deliciosa eu começava a experimentar, já agora livre do susto por que passara e tudo por causa de uma visão errada das coisas, da minha confusão e do meu temor diante de nada, pois nada aconteceu, tudo foi um terrível engano de minha parte. Se eu lhes contasse o que vivera, imaginando uma invasão, tentando vencer uma noite de horror, presa num banheiro frio,  quando lá fora não acontecia nada, na certa ficariam preocupados com a minha mente fantasiosa. Fiquei em silêncio e não lhes contei nada,  aceitando  que tudo não passara de uma situação imaginada por mim, sem fundamento.
Eu me perguntava, então, como é que pude imaginar, com tantos detalhes, uma invasão noturna, em que tive de me refugiar para não ser atacada. Minha mente criou uma ambiência de terror. Na verdade, o inimigo que eu temia estava dentro de mim, era eu mesma, era minha mente, minhas sensações que me arrastavam para um perigo inexistente. Eu tentava, em vão, desvencilhar-me de mim mesma, foi uma experiência terrível. Ainda bem que ninguém ficou sabendo de nada. Nenhum vestígio, nada para comprometer-me. Assim, Raquel e Lucas poderão sentir saudades de mim, desejar que eu retorne outras vezes, sem lhes causar desassossego e preocupação.
Em minha casa, finalmente! Comecei a dar um jeito nas coisas que deixara por ocasião da viagem.  Eu me sentia ainda mal pelo que me acontecera, teria de tomar cuidado com as fantasias  mentais.  Meus primos viviam tão tranquilos naquele apartamento e eu, com as minhas idéias, ameacei mostrar-lhes um ambiente que lhes roubaria a paz. Sim, como é que uma pessoa, de repente, se sente ameaçada porque a luz apagou? Por que não pensei, a luz apagou porque deve ter  acontecido alguma coisa com ela. Simples. Meu raciocínio preferiu  enveredar pelo sinistro diante da escuridão  e gerou toda aquela confusão, que ainda  me aborrece muito. Preciso reencontrar minha tranquilidade perdida.
Ainda não fazia um mês do meu retorno quando recebi uma carta de Raquel. Na carta, ela me contava que viveram, ela e Lucas,  uma situação terrível e angustiosa numa noite em que, tendo deixado a porta entreaberta, chegaram tarde.  As luzes, de repente, se apagaram e eles se sentiram amordaçados e jogados ao chão por dois indivíduos encapuzados. Foram obrigados a revelar o segredo do cofre, de onde levaram jóias, dinheiro e documentos. Descobriram ainda peças artísticas e quadros. Eles só não sofreram mais porque não ofereceram resistência. Quem os assaltou conhecia o problema da luz e da porta aberta. Infelizmente, não conseguiram identificar os assaltantes, que se foram bem tarde da noite, na hora em que os porteiros são substituídos  e há, sempre, uma confusão de entrada e saída. Permaneceram amarrados e amordaçados até o dia seguinte, quando a empregada Odete chegou para o serviço do dia e os encontrou. Desgostosos, mudaram de local e, hoje, não deixam mais a porta aberta, mas muito bem fechada. Acabou-se o mundo mágico por causa da crueldade dos homens.


domingo, 22 de dezembro de 2013

Marcel Proust - À Sombra das Raparigas em Flor - 22 de dezembro de 2013 às 17:42 O AQUÁRIO DO GRANDE HOTEL DE BALBEC Elsa Caravana Guelman Marcel Proust, segundo André Alain Morello, responsável pelas Notas constantes do livro À Sombra das Raparigas em Flor, num “bathyscaphe”, convida seus leitores para um mergulho profundo nas águas para explorar o mundo submarino, tal qual o capitão Nemo no Nautilus. O autor observa atentamente uma noite em que as fontes de luz iluminavam a grande sala de jantar do hotel. Comparou o que seus olhos captaram a um imenso aquário, vendo-se pela parede de vidro a população operária de Balbec, os pescadores e pequenos burgueses, que se comprimiam, invisíveis, para observar a vida luxuosa da aristocracia, tão maravilhosa para as pessoas mais humildes como eram os estranhos peixes e moluscos. Há, então, uma grande questão social exigindo resposta: será que a parede de vidro poderá proteger para sempre o festim daquelas feras extravagantes? Será que um dia as pessoas obscuras que observam tal espetáculo não virão capturá-las em seu aquário para devorá-las? Enquanto isso não acontece, quem sabe se no meio daquela multidão paralisada e surpresa haveria algum escritor, algum amante da ictiologia humana que, ao observar as mandíbulas de velhos monstros femininos se fecharem após engolirem o alimento, tentasse classificá-los pela raça, pelos caracteres inatos e adquiridos , graças aos quais uma velha dama sérvia, “cujo apêndice bucal é o de um grande peixe marinho”, pois desde a infância vive nas águas doces do Faubourg Saint-Germain, come sua salada como uma La Rochefoucauld . Acontece que esse escritor, esse amante da ictiologia humana, interessado na parte da zoologia que cuida dos peixes, existe, sim, é Marcel Proust, que se sente distante do festim aristocrático do Grande Hotel de Balbec. E é, como crítico daquela sociedade sem escrúpulos, valores morais e artísticos, que ele penetra no bathyscaphe e , numa “descente”, vai às profundezas das águas para explorar os abissais da alma e do comportamento humano e estudá-los no ambiente dos peixes, comparando-os às extravagantes espécies marinhas. E como são ricas e simbólicas as suas reflexões, traduzidas em metáforas revolvidas nos escombros do seu inconsciente mais recôndito! Elas parecem atravessar os séculos nas profundidades oceânicas para, finalmente, emergir em verdades insofismáveis, transformadas em signos e mitos, deixando o autor completamente isolado dos aristocratas do Faubourg Saint-Germain, dos burgueses e dos outros em geral para os tempos vindouros, numa redoma impenetrável, como a redoma da Arte com destino à posteridade. Eis o trecho de Marcel Proust: "...E à noite não jantavam no hotel, onde os focos elétricos, jorrando luz no grande refeitório, transformavam-no em um imenso e maravilhoso aquário, diante de cuja parede de vidro a população operária de Balbec, os pescadores e também as famílias de pequenos burgueses, invisíveis na sombra, se comprimiam contra o vidro para olhar, lentamente embalada em remoinhos de ouro, a vida luxuosa daquela gente, tão extraordinária para os pobres como a de peixes e moluscos estranhos: ( uma grande questão social, saber se a parede de vidro protegerá sempre o festim dos animais maravilhosos e se a gente obscura que olha àvidamente de dentro da noite não virá colhê-los em seu aquário e devorá-los). No entanto, em meio daquela multidão suspensa e atônita no negror da noite, talvez houvesse algum escritor ou estudioso da ictiologia humana, que ao ver como se fechavam as mandíbulas dos velhos monstros femininos para engolir algum pedaço de alimento, talvez se entretivesse em classificar tais monstros pelas suas raças, pelos caracteres inatos e também por esses caracteres adquiridos, graças aos quais uma velha dama sérvia, cujo apêndice bucal é o de um grande peixe marinho, comendo salada como uma La Rochefoucauld, pois desde a infância vive na água doce do faubourg Saint-Germain.” (...) “Et le soir ils ne dînaient pas à l’hôtel ou, les sources électriques faisant sourdre à flots la lumière dans la grande salle à manger, celle-ci devenait comme un immense et merveilleux aquarium devant la paroi de verre duquel la population ouvrière de Balbec, les pêcheurs et aussi les familles petits bourgeois, invisibles dans l’ombre, s’écrasaient au vitrage pour apercevoir, lentement balance dans des ramous d’or, la vie luxueuse de ces gens, aussi extraordinaire pour les pauvres que celle de possons et de mollusques étranges ( une grande question sociale, de savoir si la paroi de verre protégera toujours le festin des bêtes merveilleuses et si les gens obscurs qui regardent avidement dans la nuit ne viendront pas les cueillir dans leur aquarium et les manger). En attendant peut-être parmi la foule arrêtée et confundue dans la nuit, y avait-il quelque écrivain , quelque amateur d’ichtyologie humaine, qui regardant les mâchoires de vieux monsters féminins se refermer sur un morceau de nourriture engloutie, se complaisant à classer ceux-ci par race, par caractères innés et aussi par ces caracteres acquis qui font qu’une vieille dame serbe dont l’appendice bucal est d’un grand poisson de mer, parce que depuis son enfance elle vit dans les eaux douces du faubourg Saint-Germain, mange la salade comme une La Rochefoucauld". Antes desse espetáculo noturno, o autor relata uma situação bem desagradável que teve de enfrentar na sala de almoço do hotel, mostrando o comportamento negativo de um hóspede, que o fez levantar-se, sem desculpas, da mesa que lhe fora indicada, por engano, interrompendo-lhe a refeição, pois havia uma reserva no nome dele, pedindo em voz alta ao mordomo que cuidasse para que semelhante erro não se repetisse por ser bastante desagradável que “gente que ele não conhecia” tomasse conta de sua mesa, o que constituiria, para ele, um verdadeiro insulto. Fotos: Google.

domingo, 10 de novembro de 2013

Os 100 anos de “A la Recherche du Temps Perdu” ( “Em Busca do Tempo Perdido”) de Marcel Proust. ELSA CARAVANA GUELMAN Há 100 anos, em 13 de novembro de 1913, Marcel Proust lançava, depois de uma luta árdua em busca de uma editora, seu livro : “Du côté de chez Swann” (“O Caminho de Swann”). Nesse livro já estão cristalizados os principais fundamentos que nortearão a sua busca do tempo perdido. Sabe-se que ele escreveu, ao mesmo tempo, o primeiro capítulo do primeiro livro, “Combray”, e o último capítulo do último livro, “Matinée chez la princesse de Guermantes”, deixando um imenso espaço vazio para ir preenchendo com os acontecimentos posteriores que seriam trazidos pela constante busca do tempo perdido, pois toda a obra se identificava e se reproduzia em função do Tempo. Ele já tinha pronto, pois, o início de sua especulação, progressivamente revelada pela descoberta de suas recordações, de seu passado, que culminaria com suas reflexões filosóficas no último capítulo do “ Le Temps Retrouvé” (“OTempo Reencontrado”). No primeiro capítulo do primeiro livro, “Combray”, ele mostra sua infância dividida entre dois mundos, primeiramente o caminho de Méséglise e o caminho de Villebon (constante de seus rascunhos). O primeiro caminho, de Swann, o levaria para recantos inesquecíveis, coloridos pela exuberante paisagem, pelos espinheiros e pelo odor dos lilases; o segundo, que ganhou o nome definitivo de Guermantes com a publicação (em substituição a Villebon), com o qual pretendia simbolizar o passado histórico da França, o faria caminhar ao longo das margens do Vivonne, tendo como modelo as Nymphéas de Monet, que ali descreveu. Ele mostrará, igualmente, que esses dois mundos são intransponíveis, com uma demarcação absoluta, não se podendo, também, conhecer os dois lados num mesmo dia. Eles se constituíam em vasos fechados e sem comunicação entre si. Seria, pois, impossível uni-los e, no entanto, sozinhos eles não teriam a mesma importância, um precisaria do outro para existir. Há uma linha invisível entre eles, que os separa e permite que cada um exiba suas características próprias, as quais os tornam definidos e perfeitamente individualizados. O caminho de Swann representava a burguesia emergente e triunfante e o caminho de Guermantes simbolizava a aristocracia, que se julgava de origem divina, a nobreza, embora ela evidenciasse, já, os vestígios de sua decadência. O que ocorre é uma figuração poética de uma paisagem geográfica, com esses dois elementos diferentes, que adquire significado marcante no mundo da arte e constrói, assim, verdadeira metáfora. No último capítulo do último livro, “Le Temps Retrouvé”, “Matinée chez la princesse de Guermantes", o narrador, após ser introduzido no salão e tentar reconhecer nos presentes seus amigos do passado, no embate de suas reflexões de cunho filosófico e artístico, encontra Gilberte, que é filha de Swann e se casou com um Guermantes, Robert de Saint-Loup, e ela, apesar dos anos, ainda loquaz, resolve apresentar-lhe sua filha, Mademoiselle de Saint-Loup. Diante dele, a jovem, que trazia os traços culturais, a um só tempo, da burguesia e da nobreza, o conduziu aos dois grandes caminhos de seus passeios e de seus sonhos, por seu pai, o de Guermantes e, por sua mãe, o de Méséglise, fazendo-o compreender, finalmente, que os dois caminhos, outrora intransponíveis e incomunicáveis, eram agora um só, podendo-se ir a Guermantes passando pelo lado de Swann. O narrador não se cansava de olhar para ela, cuja beleza se formara nos anos que ele havia perdido: buscava recomeçar, então, a vida que se lhe esvaíra. Quando se fala, portanto, dos cem anos de “O Caminho de Swann”, onde Marcel Proust inicia sua Recherche, ou seja, sua procura, não se pode deixar de falar de “O Tempo Reencontrado”, onde tudo termina, porque um livro já estava dentro do outro, e um tempo já estava dentro do outro tempo, em perfeita sintonia, desde o primeiro dia da busca que levaria o narrador a reencontrar seu passado.

Os 100 anos de “A la Recherche du Temps Perdu” ( “Em Busca do Tempo Perdido”) de Marcel Proust. ELSA CARAVANA GUELMAN Há 100 anos, em 13 de novembro de 1913, Marcel Proust lançava, depois de uma luta árdua em busca de uma editora, seu livro : “Du côté de chez Swann” (“O Caminho de Swann”). Nesse livro já estão cristalizados os principais fundamentos que nortearão a sua busca do tempo perdido. Sabe-se que ele escreveu, ao mesmo tempo, o primeiro capítulo do primeiro livro, “Combray”, e o último capítulo do último livro, “Matinée chez la princesse de Guermantes”, deixando um imenso espaço vazio para ir preenchendo com os acontecimentos posteriores que seriam trazidos pela constante busca do tempo perdido, pois toda a obra se identificava e se reproduzia em função do Tempo. Ele já tinha pronto, pois, o início de sua especulação, progressivamente revelada pela descoberta de suas recordações, de seu passado, que culminaria com suas reflexões filosóficas no último capítulo do “ Le Temps Retrouvé” (“OTempo Reencontrado”). No primeiro capítulo do primeiro livro, “Combray”, ele mostra sua infância dividida entre dois mundos, primeiramente o caminho de Méséglise e o caminho de Villebon (constante de seus rascunhos). O primeiro caminho, de Swann, o levaria para recantos inesquecíveis, coloridos pela exuberante paisagem, pelos espinheiros e pelo odor dos lilases; o segundo, que ganhou o nome definitivo de Guermantes com a publicação (em substituição a Villebon), com o qual pretendia simbolizar o passado histórico da França, o faria caminhar ao longo das margens do Vivonne, tendo como modelo as Nymphéas de Monet, que ali descreveu. Ele mostrará, igualmente, que esses dois mundos são intransponíveis, com uma demarcação absoluta, não se podendo, também, conhecer os dois lados num mesmo dia. Eles se constituíam em vasos fechados e sem comunicação entre si. Seria, pois, impossível uni-los e, no entanto, sozinhos eles não teriam a mesma importância, um precisaria do outro para existir. Há uma linha invisível entre eles, que os separa e permite que cada um exiba suas características próprias, as quais os tornam definidos e perfeitamente individualizados. O caminho de Swann representava a burguesia emergente e triunfante e o caminho de Guermantes simbolizava a aristocracia, que se julgava de origem divina, a nobreza, embora ela evidenciasse, já, os vestígios de sua decadência. O que ocorre é uma figuração poética de uma paisagem geográfica, com esses dois elementos diferentes, que adquire significado marcante no mundo da arte e constrói, assim, verdadeira metáfora. No último capítulo do último livro, “Le Temps Retrouvé”, “Matinée chez la princesse de Guermantes", o narrador, após ser introduzido no salão e tentar reconhecer nos presentes seus amigos do passado, no embate de suas reflexões de cunho filosófico e artístico, encontra Gilberte, que é filha de Swann e se casou com um Guermantes, Robert de Saint-Loup, e ela, apesar dos anos, ainda loquaz, resolve apresentar-lhe sua filha, Mademoiselle de Saint-Loup. Diante dele, a jovem, que trazia os traços culturais, a um só tempo, da burguesia e da nobreza, o conduziu aos dois grandes caminhos de seus passeios e de seus sonhos, por seu pai, o de Guermantes e, por sua mãe, o de Méséglise, fazendo-o compreender, finalmente, que os dois caminhos, outrora intransponíveis e incomunicáveis, eram agora um só, podendo-se ir a Guermantes passando pelo lado de Swann. O narrador não se cansava de olhar para ela, cuja beleza se formara nos anos que ele havia perdido: buscava recomeçar, então, a vida que se lhe esvaíra. Quando se fala, portanto, dos cem anos de “O Caminho de Swann”, onde Marcel Proust inicia sua Recherche, ou seja, sua procura, não se pode deixar de falar de “O Tempo Reencontrado”, onde tudo termina, porque um livro já estava dentro do outro, e um tempo já estava dentro do outro tempo, em perfeita sintonia, desde o primeiro dia da busca que levaria o narrador a reencontrar seu passado.

Melusine: Marcel Proust - O CAPACHO dos Guermantes -

Melusine: Marcel Proust - O CAPACHO dos Guermantes -